3 porcento netflix

3%, o início da produção nacional independente na Netflix

A Netflix anunciou no começo de setembro a produção da série 3%, a primeira do serviço completamente realizada no Brasil. A ficção cientifíca distópica apareceu pela primeira vez há quatro anos na forma de um piloto postado no YouTube. Na descrição do vídeo, idealizado por Pedro Aguilera, consta o pedido: “Buscamos um canal de TV interessado em viabilizar a temporada completa”. O fato de que 3% ser produzido quatro anos depois (e, o mais importante, não por uma emissora televisiva) diz muito sobre o atual momento das produções audiovisuais.

Criada por Reed Hastings e Marc Randolph em 1997, a Netflix nasceu como um serviço de aluguel de DVDs via correspondência por preços fixos. O que já era uma ameaça às locadoras tradicionais, como a Blockbuster, cresceu mais ainda quando, em 2006, a Netflix lançou seu catálogo via streaming.

Empresas passaram a criar alternativas para consumir produtos audiovisuais adequeadas à realidade da Web 2.0. O Hulu exibe programas e filmes de graça, mas entrecortados por comerciais. A Apple, assim como o YouTube, trabalha com o sistema de aluguel virtual. As empresas do velho modelo de TV paga tiveram que se adaptar e criaram, por exemplo, a HBO Go e Now, Telecine Play e Net Now. Segundo o Leichtman Research Group, 40% das residências norte-americana assinam a Netflix e 84% TV paga. A distância pode parecer grande, mas deve-se considerar que esses 40% foram conquistados em pouquíssimo tempo.

A terceira mudança de diretrizes da Netflix se deu em 2012, quando o serviço passou a exibir conteúdos exclusivos. Nesse ano, além disponibilizar a série de mafiosos Lillyhammer, a primeira da com produção própria, a empresa também trouxe de volta a cultuada série de comédia Arrested Development. Com isso, o serviço se mostrou uma alternativa ao consumo audiovisual oposto ao cinema — sem as janelas de exibição em salas, DVDs, TV etc — e ao esquema televisivo — ao disponibilizar todos episódios de uma temporada de uma vez só.

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Hoje, a Netflix conta com uma considerável variedade de produtos originais, o que inclui séries, animações, documentários e comédias stand-up. Em outubro, o primeiro filme original, Beasts of No Nation, será lançado, seguido por filmes de Sofia Coppola e Adam Sandler, em dezembro. A empresa se beneficiou do panorama das séries norte-americanas na década de 2010, marcada pela vinda de diretores, roteiristas e atores notórios de Hollywood para a produção do modelo seriado. Desta forma, explica-se o sucesso de séries como House of Cards, Sense8 e Narcos, concebidos por David Lynch (Clube da Luta), irmãos Wachowski (Matrix) e José Padilha (Tropa de Elite).

Parcerias como a feita com Marvel também alavancam a popularidade do serviço. Segundo dados da empresa de consultoria Luth Research, publicados pela Variety, na primeira semana de exibição de Demolidor, 4,4 milhões de pessoas assistiram a pelo menos um episódio. Isso, na época, correspondia à 10,7% dos 40,9 milhões de assinantes, enquanto a terceira temporada de House of Cards teve 6,5% de audiência.

No Brasil, estima-se que a Netflix tenha 2,5 milhões de assinantes, o que superaria a receita de emissoras abertas em declínio, como a Band e a RedeTV!. Dois pontos são alvos recorrentes de críticas da operação do serviço no país: a falta de uma regulamentação fiscal mais rigorosa e a ausência de produções nacionais originais.

A primeira questão teve uma evolução no dia 10 de setembro, quando o projeto de lei complementar 366/2013, que impõe o Imposto Sobre Serviços (ISS) sobre serviços de streaming, lojas de produtos virtuais e outros mais, foi aprovado pela Câmara. Com isso, serviços como o da Netflix, Spotify, Steam, Rdio etc devem sofrer reajustes. O projeto, porém, ainda passará pelo Senado.

Já a segunda questão pode ter um ínicio com 3%. A Netflix,  assim como seus concorrentes no Brasil, tem poucas obras nacionais no catálogo e uma curadoria pouco apurada. Existe a possibilidade de que a Ancine atribuirá a cota de produções nacionais, assim como faz com a TV paga, aos serviços On Demand. Segundo a Folha de S. Paulo, a agência estuda estabelecer regras de produção de conteúdo nacional para os serviços de streaming. Uma das pesquisas aponta para uma proporção de 30% do conteúdo sob demanda seja de produção independente e nacional.

Foto de capa: Divulgação/Netflix

Lucas Marques dos Santos

Lucas Marques dos Santos

Estudante de jornalismo da UNESP. Amante da arte, vê ensinamentos tanto nos livros quanto nas conversas de boteco.

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