Raskolnikov's Flat by Jeremiah Humphries

A Culpa do Dia Seguinte

Crime e Castigo, obra de Fiódor Dostoiévski, fez de Rodion Romanovich Raskolnikov o maior protagonista da culpa na literatura universal. Matando uma velha justificado por sua alucinante teoria antropológica, Rodion é engolido pelo sentimento de responsabilidade que, finalmente, o leva à confissão. O seu nome é perfeito por dois motivos: vai mudando de triste (Ródia) a alegre (Rodka) para se adaptar aos contextos da narração e deriva da palavra “raskolnik” – “cisão” ou “cisma” –, que explica exatamente esse choque de personalidade. Rodion, morador de Rhodes, traz da Grécia Antiga a filosofia de que existem homens “ordinários” e homens “extraordinários”, dependendo da sua legitimidade para romper a ordem pelo bem. A loucura está no fato de Rodion justificar o seu homicídio lançando mão do álibi de ser “extraordinário”. Mas esse álibi, por mais bem teorizado em sua cabeça, não se sustenta quando bate a culpa do dia seguinte. Ela o transforma num prisioneiro de si mesmo que não encontra saída senão em admitir-se culpado.

Os romanos tinham a expressão “mea culpa” para designar a pressão psicológica de Rodion. Ela continua viva no texto bíblico do Confiteor, no qual a Igreja Católica investe em direção à certeza moral de seus fiéis para torná-los presas dependentes da sua absolvição dominical. Os eslovenos usam o “mea culpa” para dizer “meu problema”, no que chegam ainda mais próximos à história de Dostoiévski. O problema de Rodion é sua culpa, mas não uma culpa lata, sobre os males da vida, de que padece o homem desde que se entende por si. Trata-se de uma culpa estrita, especificamente do crime de assassinato, e que não obstante acaba levando o criminoso à alucinação. Hoje, a expressão latina é usada politicamente para classificar uma assunção de dívida moral para com a sociedade. De certa forma, nada, a não ser a impolidez do que havia no romance de 1866, mudou. Rodion nunca se pretendeu polido ao revelar-se responsável pela morte da velha. O que ele quis foi expiar o sentimento que, se continuasse dentro dele, o levaria ao mesmo destino de sua vítima.

O próprio verbo “expiar” que acompanha o substantivo da culpa significa muito. Significa colocar para fora, literalmente, mas também castigar-se por um desvio de conduta qualquer. Eis a definição: remir (culpas ou delitos) pelo cumprimento de pena ou penitência. Os motivos que levam alguém à remissão são indetermináveis, mas pelo menos um deles está sempre presente na decisão: o desespero pela cura da doença psicológica. O frio da Sibéria a que Rodion foi degredado por causa da auto-delação não se compara ao frio mental em que chegou com a ruminação do assassínio. O sentimento de culpa é a severidade do superego freudiano, ou seja, a severidade da consciência. Quem leu O Mal-estar na Civilização, de Sigmund Freud, sabe que a culpa é fruto da civilização, que oprime o homem a conter seus impulsos para nela poder viver. Sentir-se culpado, portanto, significa sentir-se pressionado por uma exigência da sociedade. Rodion não se sentiria culpado se seu ato não tivesse reflexos sociais. Uma culpa privada é uma culpa pública. E nada nos tira da rota traçada pelo ato: houve crime, haverá castigo – seja pelos outros, ou por nós mesmos

Yan Rodrigues dos Santos é autor deste texto, cursa o 3º ano da Direito-USP, tem Iniciação Científica em Direito Penal e é intercambista acadêmico na França.

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