juncos ao vento

A província universal em “Juncos ao Vento”

Grazia Deledda é uma desconhecida do público brasileiro. Segunda mulher a ganhar o prêmio Nobel de Literatura (1926), a italiana estava fora de catálogo até a recente iniciativa da editora Carambaia de reavivá-la. Em uma edição de design notável trouxe ao público brasileiro a beleza frugal da obra de Deledda.

Juncos ao Vento (Tradução: Maria Augusta Mattos, Editora Carambaia, 2015) é um retrato preciso e universal da vida provinciana, das pequenas cidades, perdidas no meio de um vasto território e, devido a seu isolamento, peculiares a seu próprio modo no folclore e costumes. A escrita de Deledda reflete o clima opressor, seco e vazio dessas paisagens, lembrando as obras de Graciliano Ramos.

Três núcleos de personagens confluem para a formação dessa obra. As irmãs Pintor, descendentes de nobres donos de vastas terras, agora em profunda decadência; Efix, o fiel servo das irmãs que há décadas trabalha incansavelmente para manter o que restou das terras de suas patroas; e Giancinto, o sobrinho das irmãs que aparece em suas vidas, a princípio como esperança e, posteriormente, como elemento de destruição.

Esses personagens estão imersos em um cenário e uma sociedade que podemos caracterizar como universais, que são as províncias, as pequenas cidades, nas quais as relações pessoais têm características muito íntimas: as intrigas resultantes das relações extremamente próximas, as disputas por heranças entre famílias ricas e decadentes e o disfarçado conflito de classes.

A atmosfera da Sardenha semi-rural poderia ser a do Brasil interiorano da mesma época. O poder da obra encontra-se em nos identificarmos com as personagens em seus conflitos cotidianos e nos sobressaltos de suas vidas ou reconhecer histórias semelhantes contadas pelos nossos antepassados.

Foto de capa: Divulgação/Editora Carambaia

Rafael Barizan

Rafael Barizan

Graduando em direito, leitor voraz e rabugento e um existencialista em construção de alma barroca.

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