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As manifestações e a chacina de Osasco: um retrato de quem quer o impeachment de Dilma

Não fui às manifestações do dia 16 de agosto. Nas penúltimas, em março, estava chegando a São Paulo quando, no metrô, vi vários manifestantes. Com suas camisas da Seleção Brasileira e os escudos da CBF (cujo ex-presidente está preso na Suíça por corrupção e o atual presidente tem medo de sair do país por medo de ter o mesmo destino) e as caras pintadas de verde e amarelo, diziam ser pacíficos e democráticos, mas, ao mesmo tempo, proferiam xingamentos machistas a Dilma (“vadia”, “vagabunda” e “dilmanta”, por exemplo) e expunham todo seu ódio a quem quer que fosse do PT (Lula, Dirceu, Palocci etc).

Mas antes de ontem não era como em março. Na quinta-feira, um caso de violência ganhava cobertura nacional: a chacina em Osasco, Barueri e Itapevi. A polícia confirma que 19 pessoas morreram nessa série de ataques e investiga-se que tenha sido obra de PMs.

A chacina na Grande São Paulo é apenas uma referência nesse sentido, afinal a violência na periferia é uma constante. De acordo com o Mapa da Violência da Unesco, o número de homicídios de jovens brancos diminuiu 32,3% no mundo, enquanto os homicídios de jovens negros cresceu 32,4%. Segundo a Anistia Internacional, 30 mil jovens foram assassinados no Brasil em 2012, sendo 77% deles negros. “Temos uma tradição de criminalização da pobreza, de definição de guerra ao jovem pobre, que só foi agravada com a ditadura militar e que não foi alterada de forma substantiva com a democracia”, disse o diretor executivo da organização, Atila Roque, em entrevista a CartaCapital.

Antes de ontem, na Paulista, um grupo organizou um protesto contra a violência na periferia. O fotógrafo Matheus José Maria participou da cobertura do ato e publicou em sua conta no Medium um texto sobre a intervenção dos Jornalistas Livres. Ele relata que “uma bandeira do Brasil era estendida e uma pessoa deitava sobre ela, toda coberta de sangue (ketchup, só para constar) enquanto sua mãe pranteava sua morte”. Ele ainda completa: “Claro que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso teria notado que isso era uma menção à chacina ocorrida no final de semana em Barueri e Osasco”.

A reação dos outros manifestantes (aqueles com cartazes de “Fora Dilma”, “Impeachment já!”, e “Intervenção militar”) foi vergonhosa. Jogaram tinta na a atriz deitada e chegaram ao ponto de colar um adesivo em sua testa. Um dos autores dessas atitudes de desrespeito era uma mulher de cerca de 40 anos. O fotógrafo decidiu questioná-la: por que fez aquilo?  Ela disse que “era coisa do PT”. O fotógrafo disse que não e que a referência era ao que aconteceu em Osasco. Então, ela falou: “Ali não era lugar pra fazer isso. Se quisessem protestar que fossem fazer isso lá em Osasco e não ali na Paulista”, e continuou, “coisa da periferia tem que ser resolvida na periferia”.

No mesmo dia, um rapaz foi “convidado a se retirar” da Paulista (isso mesmo, expulso de uma manifestação “democrática e pacífica”) porque carregava um cartaz que fazia referência ao episódio na Grande São Paulo, com o escrito: “Às dez todo excluído vira alvo vivo. A era das chacinas”. O jovem Júlio César Bastos disse: “Hoje era para todo mundo estar de preto, em respeito às vidas que foram tiradas. Mas eu sei de uma coisa: aqui na Paulista não tem disparo acidental. Na periferia tem, todo dia. E o que acontece com o policial que causou isso? Nada”.

 

Esse é o retrato de quem foi às manifestações pedir o impeachment da presidenta. Caricato, até, se pegarmos as maiores contradições de cada um. Segundo o El País, também teve professora de 53 anos dizendo “E sou a favor da intervenção do Exército para acabar com todos e fechar o Congresso e o Senado”. Teve uma senhora que disse que “tem que matar essa mulher”, se referindo a Dilma. Enquanto o egoísmo, que vira as costas para a brutal violência na periferia (e convenhamos, se há quem mais sofre com a corrupção, esse alguém com certeza é pobre, já que quem é rico não depende de SUS ou de escola pública e contrata empresas de segurança particular), predomina nas Paulistas da vida, não há como enxergar qualquer embasamento argumentativo nessas reivindicações.

Fotos: Matheus José Maria

Gabriel Hirabahasi

Gabriel Hirabahasi

Jornalista, unespiano e amante das piores piadas do mundo. Acredita que cada história mereça ser contada por inteiro (mesmo que isso demore um pouco). Também é músico, prolixo e esperançoso.

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