Carta aberta a Laura Mattos

Esta carta é destinada a Laura Mattos, editora de Semanais da Folha, a quem Rogério Gentile cedeu seu espaço de coluna na página A2 da Folha de S. Paulo do dia 06/11/2015. Você pode ler a coluna clicando aqui.

Cara Laura,

olá. Li sua coluna na quinta feira. Normalmente leio meu jornal no final da noite, entre 22h e 23h, e foi quando li seu texto em espaço cedido por Rogério Gentile. Primeiro, gostaria de parabeniza-la – não pelo conteúdo, logo chegaremos lá – mas por ter tido a oportunidade de expor sua opinião no segundo lugar mais privilegiado do miolo do jornal (o primeiro é onde ficam os editoriais). Poucas mulheres têm essa oportunidade, sabe, poucas mesmo. Não é à toa o movimento #AgoraÉQueSãoElas, belamente aderido por diversos jornalistas e colunistas brasileiros. Inclusive, esse é um dos motivos que te escrevo: em sua coluna, você diz que te “soa estranha e nada feminista a ideia de pedir espaço aos homens…”. Sim, ela soaria estranha se nós já tivéssemos o espaço – porém, você não acha sintomático que apenas através dessa campanha algumas poucas de nós tivemos a oportunidade? Que você teve o espaço em um dos lugares mais privilegiados do jornal em que você trabalha? Pense bem: talvez você não veja isso como um privilégio porque tem certo destaque em sua carreira, mas isso é um privilégio e eu digo isso com toda a certeza. Quantas de nós temos espaço REAL de darmos nossa opinião? Podemos ser maioria apresentando telejornais, por exemplo, ou maioria formada nos cursos de jornalismo Brasil a fora, mas quantas podemos DE FATO dizer o que pensamos? Ora veja, no dia em que você escreveu sua coluna, quinta feira, 05/11, os quatro colunistas da seção eram homens, no dia anterior também. Claro, alguns deles cederam a palavra, outros advogam por nós, mas temos que nos lembrar que nunca uma voz masculina se equipará a uma voz feminina quando se trata de direitos das mulheres (um dos inúmeros motivos pelo qual marchamos contra a PL 5069). Então, Laura, talvez possamos conversar mais sobre os motivos pelos quais termos espaço, mesmo que tenham que ser cedidos pelos homens, é sim uma demonstração de feminismo. Sim, o ideal é conquistarmos esses espaços, tomarmos para nós, sermos donas de onde pertencemos, eu concordo 100% com isso! Porém, entendo que nossa voz ser impressa onde normalmente não seria é um ganho enorme.

Agora, sobre o conteúdo… Preciso dizer que pensei muito antes de escrever sobre isso. Primeiro porque tenho muito receio da reação que meu posicionamento pode causar, nessas últimas semanas presenciei ataques criminosos a muitas mulheres que tiveram a “audácia” de se expressar (imagina se elas tivessem o destaque que seu texto teve). Só que decidi que não poderia ficar sem falar nada, não poderia deixar passar minha indignação ao ler o seu texto.

Penso que tenha ficado óbvia meu posicionamento, se não, reafirmo: eu sou a favor da DESPENALIZAÇÃO do aborto – deixo claro aqui que eu não sou e nem nunca serei a favor do aborto, do ato em si. Entre esses dois conceitos existem diferenças cruciais: a despenalização do aborto é fazer com que o ato não mais seja crime, nada mais. Despenalizar (ou descriminalizar) a prática não é incentivá-la, não é usá-la como método contraceptivo, não é estimular o sexo sem proteção, é apenas pensar de uma maneira macro – o que você, se permito dizer, não fez.

Você trouxe à tona sua experiência pessoal com a gestação e maternidade: você nos contou sobre seus dois filhos, que devem ser lindos! Você nos contou como a gestação de ambos foi desejada, como a gravidez foi planejada – eu imagino que seu pré-natal tenha sido saudável e que você tenha tido um plano de parto, certo? Eu fico muito feliz por você, afinal, não são todas as mulheres que têm essa tranquilidade. As que sofrem violência não têm, por exemplo, e você concorda comigo, de acordo com o que escreveu em seu texto.

O que eu rebato, portanto, é o desserviço que você transmitiu com o seu texto: você colocou a mulher em condição subalterna, devo dizer. Você nos fez de meros potes de hormônios que não resistem a uma criança fofinha e rechonchuda. Ao expor seu amor incondicional por seus filhos e usar isso como um argumento para ser contra o direito de muitas outras de serem donas dos próprios corpos, você tornou obrigatória a maternidade. É lindo que você tenha engravidado e tido seus dois meninos, é lindo que isso tenha sido uma ótima experiência, mas não é sempre assim. Muitas mulheres que engravidam – e gente, sejamos inteligentes nessa discussão: métodos contraceptivos falham – não desejam a maternidade como você desejou, não desejam gerir um filho. Utilizar a gravidez como punição pelo ato sexual e obrigar essas mulheres a isso é impor a maternidade a elas, momento que você mesmo afirma, veio com o tempo, com o choro, com o peso de seu bebê em seus braços. A maternidade não deve ser imposta – já colocamos tantas coisas sob nossas costas, já tratamos tão mal as mães – a maternidade deve florescer, nisso estamos de acordo. Porém, não podemos contar que isso acontecerá em todas nós, não podemos assumir de antemão que toda mulher deseja ser mãe.

Expor dados aqui seria apenas redundante, mas lá vamos: um estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), realizado em 2014, estima que 865 mil mulheres fizeram o procedimento em 2013. Nesse mesmo ano, a cada dois dias uma brasileira morria por causas decorrentes de aborto ilegal. Isso é problema de saúde pública: aborto é a quinta maior causa de mortes maternas no Brasil!

Legalizar não é incentivar, legalizar é compaixão por todas aquelas que foram punidas por ser mulheres. Legalizar é dar a mulher o direito de decidir sobre o próprio corpo – para você que pensa no feto, lembro que o Conselho Federal de Medicina endossou a interrupção da gravidez até a 12ª semana.

Cara Laura, minha intenção não foi te atacar, mas sim manter uma conversa de mulher para mulher: talvez as suas experiências tenham impedido que você nos observasse como um todo, que você visse que nem todas teremos o privilégio lindo que você teve. Conto que com essa carta, possamos sempre (des)construir ideias e estender um debate civilizado.

Atenciosamente,

Marcela Busch.

Marcela Busch

Jornalista e feminista com orgulho. Adora escrever, hard news, política, tem o sonho de trabalhar em Brasília e poder dizer que tem "fontes dentro do Palácio do Planalto". Ah, também ama gatos.