imagem1

Centro-Favela, Favela-Centro: reflexos de mudanças culturais

No livro A Cidade Como Projeto Educativo (2003), Gómez-Granell e Villa defendem que, desde seu surgimento, a cidade atua como lugar de encontro e participação política, cultural e social. A cidade teria, assim, um papel demarcado como espaço público de convivência e agitações de todos os tipos. No entanto, nos últimos anos, a cidade teria perdido “sua função comunitária, educativa e civilizadora” e se tornado um lugar de conflitos de interesse e poderes, dado o descaso do poder público e das classes dominantes com questões coletivas de interesse social como saúde, educação e cultura. O Estado teria abandonado seu papel principal como provedor de condições básicas para a convivência social.

Em grandes cidades não planejadas, como São Paulo, o Estado e as classes dominantes determinam a disposição geográfica dos grupos sociais pelo espaço urbano. É comum encontrar favelas ao lado de grandes condomínios ou observar incêndios mal explicados em favelas localizadas em regiões de crescente especulação imobiliária. O projeto Fogo no Barraco, de 2012, por exemplo, busca mapear os incidentes desse tipo que ocorreram na capital desde 2005 e mostrar como esses inquéritos foram ou estão sendo apurados.

Em Bauru, município com incidência de pobreza em 14%, segundo o último Censo do IBGE, a disposição do espaço urbano não é feita de maneira muito diferente. Na cidade de quase 350 mil habitantes, no interior de São Paulo, há favelas e “quebradas” espalhadas pelos quatro cantos e com frequência podemos ver que o poder público é pouco presente. Em bairros como Bauru I e Jardim TV, por exemplo, além das escolas públicas, a mão do Estado agindo como provedor de condições básicas de convivência e trocas interpessoais é quase imperceptível. Essas regiões periféricas carecem, também, de espaços de produção cultural, embora as periferias bauruenses sejam responsáveis por um dos maiores tesouros da região: o movimento Hip Hop.

Desde 2012, o movimento Hip Hop, um dos representantes da cultura de rua no Brasil, tem recebido mais atenção da mídia tradicional, em especial depois do lançamento dos CDs dos rappers Criolo e Emicida, “Nó na orelha” e “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”, respectivamente, que caíram nas graças da chamada classe média. Além desses, entre 2012 e 2013, outros ótimos lançamentos para os militantes do movimento, como os discos de Kamau, Síntese, Edi Rock, Flora Matos e Carol Konká, refrescaram e definiram uma nova sonoridade no rap nacional. A partir daí, a presença do rap em eventos como a Virada Cultural tanto na capital quanto no interior tem aumentado. Em 2012, Bauru foi palco, mais uma vez, para os Racionais MCs, um dos maiores representantes do movimento no país, e em 2014, a Semana Municipal do Hip Hop trouxe nomes como Dexter, Thaíde, Inquérito, GOG, Rael e Banks BackSpin, além de dar espaço para grupos locais como Além da Rima, Oliveira MC e David Mc.

O editor do portal de Hip Hop Bocada Forte, colunista do jornal Brasil de Fato, colaborador da revista Fórum e produtor cultural, Jair dos Santos, também conhecido como DJ Cortecertu, acredita que o espaço adquirido pelo movimento nos últimos tempos é resultado de anos história e criatividade. Para ele, “o rap e o Hip Hop voltaram a chamar a atenção por causa das criações e articulações de artistas, militantes, produtores da cultura de rua. Sem essa pressão, nenhuma administração pública ou privada ‘daria’ espaço pra gente. O rap e o hip hop mostraram que são forças culturais e, principalmente, podem gerar renda. Os de fora enxergam dessa maneira. Quem é do rap e do hip hop consegue identificar mais coisas nessa retomada. São códigos sociais, raciais e de luta por igualdade que sustentam a base disso tudo”.

Além disso, o intercâmbio cultural observado em momentos como a Virada Cultural e outros festivais também proporciona a ampliação de saberes dentro dos povos e culturas. Para o DJ CorteCertu, “sempre houve trânsito entre as culturas, uma carrega elementos das outras. Desde as que nascem para subverter e são assimiladas pela cultura de massa, passando pela cultura que se propõe superior e dominante, mas que é ressignificada por outros grupos sociais”. O DJ ainda destaca que nem sempre essas relações de troca são harmoniosas, por vezes gerando conflitos e embates sociais e ideológicos.

Rafael Schiavo, coordenador de projetos do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop de Bauru, acredita que a Virada Cultural Paulista é uma boa iniciativa e contempla o tamanho da cidade, embora não dê destaque a grupos locais de música. Para ele, a relação entre centro e periferia pode ser ampliada, pois não acredita que haja um verdadeiro intercâmbio cultural entre ambas as partes que compõem a cidade durante o evento. “Na realidade se não fossemos atrás dos espaços do centro da cidade, este espaço dificilmente viria até nós”, destaca.

A Virada Cultural de Bauru acontece no primeiro semestre de todo ano e traz companhias de teatro, dança, bandas e músicos para a cidade e ocupa espaços como Teatro Municipal, SESC e Parque Vitória Régia. Esses locais, ocupados periodicamente em festivais e eventos de grande e médio porte, reforçariam a tese dos escritores Gómez-Granell e Villa de que a cidade tem perdido seu papel de trocas sociais e culturais cotidianas e relegado essas atividades a algumas vezes no ano e a alguns grupos sociais.

Schiavo ainda reforça que longe de datas festivas e grandes eventos na cidade a relação entre centro e periferia é diferente e mais próxima, ainda que conflituosa. Para ele, “a cultura periférica está muito misturada com o centro da cidade. Por exemplo, a questão da pixação e do grafite. Você começa a fazer na sua vila, mas de repente você sente a necessidade de mostrar isto pra Bauru toda, assim como a questão do skate, bike, roller, fazer o street na cidade é bem melhor do que na ‘quebra’ (por conta de escadas, corrimãos, infraestrutura)”.

Assim, independentemente da Virada Cultural, existem pólos culturais na cidade que sustentariam a relação periferia-centro ao longo do ano, e nesse ponto, é destacada a presença dos Pontos de Cultura, ONGs da região e Oficinas Culturais, que contribuem fortemente para o cenário local.

Cabe aí o debate, sempre polêmico, sobre o que é centro e o que são as periferias, do ponto de vista humano e cultural. O diálogo é possível? Heloisa Buarque de Hollanda, pesquisadora e ensaísta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializada em cultura contemporânea, destaca no projeto Tramas Urbanas o papel dos saraus periféricos como espaço de produção cultural e troca de conhecimentos. Em entrevista concedida à revista Raiz, Heloisa afirma que a cultura periférica surgiu como “um fenômeno mais amplo, não restrito aos guetos, e que ressoa e estimula a cultura urbana de forma explosiva e irreversível.”

Já que todos somos produtores e consumidores culturais, e dividimos o mesmo espaço urbano e político na cidade, devemos olhar com mais atenção as manifestações artísticas de Bauru, incentivá-las, interagir com elas, além de cobrar do poder público mais participação democrática e igualitária em grandes eventos culturais e dar chance para novos artistas locais se apresentarem.

Embora hajam restrições econômicas entre as classes sociais de uma cidade, que podem dificultar a troca de experiências culturais, a criatividade flui como o vento, de um canto a outro, ocupando o espaço disponível, enchendo de renovação as esquinas das grandes e médias cidades. O intercâmbio entre culturas periféricas e cultura de massa deve regar e renovar os espíritos dos cidadãos, e gerar novos saberes, novas culturas, com sutilezas e contradições. Bauru, cujo potencial criativo é enorme, mas mal aproveitado e pouco incentivado pelo poder público, infelizmente ainda não leva a sério o lema que a define.

Foto de capa: Keytyane Medeiros

Keytyane Medeiros é autora deste texto e colaboradora da Revista Lampião

Você também pode gostar de...