BBoy dançando no Calçadão da Batista em 2014 (Foto: Keytyane Medeiros)

Diálogo entre Liberdade de Expressão e Mídia Radical

O graffiti, enquanto manifestação artística, tem suas origens em territorialidades distintas. O movimento Punk reinvindica seu surgimento nos porões e prédios abandonados de Berlim, Amsterdã e Londres no final da década de 1970, enquanto o movimento Hip Hop clama seu nascimento a partir dos guetos do bairro do Bronx em Nova York na mesma década. Independentemente das origens, o graffiti parece ser uma das maiores e mais profundas revoluções artísticas das últimas décadas e deve ser compreendido também como ferramenta de comunicação moderna.

Entre 1970 e 1980, a Europa vivia o auge da contra-cultura. Como reflexo da contestação de modelos hierarquizados de conhecimento, da presença da Polícia em universidades e exigindo reformas profundas no sistema educacional, jovens franceses dão início ao que ficou conhecido como Maio de 1968. O movimento se amplia, ganha ares de greve geral dos trabalhadores e faz frente à violência praticada pela polícia. Unem-se a eles movimentos anarquistas locais, que passam a questionar valores tradicionais como família, religião e Estado.

Após a renúncia do general De Gaulle, em 1969, o movimento arrefece enquanto coletivo, mas vive um momento de pulverização em todo continente europeu. As questões levantadas pelo movimento de 1968 levam jovens e militantes a reivindicar o direito de ocupação dos espaços públicos, revitalizá-los com atividades culturais gratuitas e torná-los ambientes de interesse social. Surgem então lojas, pubs e moradias coletivas em prédios abandonados em Amsterdã, Berlim, Londres e Paris.

Nesse contexto, surge o movimento Punk, questionando estruturas de poder e anunciando seu anarquismo do século XX. Junto a bandas, grupos de arte alternativa e artesãos, surgiam os primeiros grafiteiros e pixadores da Europa. Profundamente ligado às classes média e média baixa europeias, o graffiti se torna uma forma de manifestação artística e ferramenta de diálogo entre os vários grupos que existiam nos prédios e ocupações públicas. A identidade visual das cidades passa por profundas mudanças, trocando o cinza por cores vibrantes, questionamentos e tags.

Por outro lado, no final dos anos de 1960, período de grande agitação política e cultural nos Estados Unidos graças ao movimento pelos Direitos Civis dos afro-americanos, surgem as primeiras manifestações que darão origem ao movimento Hip Hop. Paralelamente a esses movimentos de auto afirmação identitária, a situação socioeconômica da população negra decaía nos guetos de Nova York, ao longo dos anos seguintes. A pauperização dos bairros era crescente e o problema com o uso e tráfico de drogas só aumentava, fazendo com que várias famílias passassem a ser chefiadas por um único membro, geralmente as mulheres.

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Aproximadamente 300 gangues disputavam espaço na cidade, levando consigo cerca de 20 mil jovens. Liderados por Afrika Bambaataa (ex-líder da gangue Black Spades), Kool Herc (DJ jamaicano naturalizado americano) e GrandMaster Flash (DJ nova-iorquino e produtor cultural), os jovens negros do Bronx passam a se reunir em pátios de colégios e quadras públicas para dançar, ouvir música e graffitar.

Para além das origens intrigantes, paralelas e paradoxais do graffiti, o estudioso Celso Gitahy destaca que, conceitualmente, esta manifestação se caracteriza por seu caráter “subversivo, espontâneo, gratuito e efêmero”, por “discutir e denunciar valores sociais, políticos e econômicos com humor e ironia”.

Foram muitos os experimentos até que se consolidasse uma maneira de graffitar em que o artista possuísse mais controle sobre o traço e o desenho final. Inicialmente, os desenhos eram feitos com tinta látex, com traços mais grossos e quase sempre em preto e branco.

A partir da década de 1980, a descoberta que bicos de latas de desodorantes e outros aerossóis permitia traços mais finos, começa a aplicação de volume às figuras e assinaturas e também a ampliação do uso das cores. Isso contribui para a aceitação do graffiti enquanto arte, em especial no Brasil.

Graffiti, tal como conhecemos, é na verdade o plural da palavra italiana “graffito” que significa rabisco, frequentemente utilizado na Arqueologia para denominar pinturas encontradas em cavernas ou escavações. O termo, associado a pinturas em paredes e muros dos grandes centros urbanos contemporâneos, não surge como denominação dada pelos próprios artistas ao seu trabalho, mas como expressão frequentemente atribuída pela imprensa norte-americana a essas manifestações.

Na época, era comum que a imprensa produzisse reportagens e conteúdos televisivos a fim de combater graffitis e pixações em Nova York nas décadas de 1970 e 1980. É importante ressaltar que nos Estados Unidos, até o começo do século XXI, não havia distinção entre graffiti e pixação, tanto jurídica quanto popularmente, como acontece no Brasil desde 2011.

O graffiti chega por aqui paralelamente ao seu desenvolvimento nos Estados Unidos, na década de 1970 e 1980, ou seja, durante a nossa Ditadura Militar. É importante lembrar que a repressão policial era muito forte naquele momento, reforçada pela existência de uma polícia política e da polícia militar. Para driblar a repressão daquele tempo, os jovens artistas desenvolviam maneiras inteligentes e experimentais de se manifestar, tais como fanzines, adesivos, pixações, perfomances e videoarte.

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Assim como nos Estados Unidos, a imprensa – aqui silenciada pelo regime militar – também pedia o fim das intervenções urbanas, pixações e graffitis pelas cidades, em especial em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. No entanto, alguns veículos alternativos de cultura defendiam a empreitada urbana dos jovens contestadores em defesa da liberdade de expressão e pensamento.

Ainda hoje as telecomunicações desempenham um papel fundamental na difusão de conhecimento e cultura nos grandes centros urbanos. No entanto, a concentração de meios, especialmente no Brasil, impede a livre circulação de ideias.

Para o professor Sandro Cajé, “as telecomunicações tem um papel político fundamental na estruturação das sociedades, sendo sempre instrumentos de uma relação verticalizada, em que os poderosos atuam como emissores e os humildes como receptores e reagentes”. Essa relação é reforçada pelo difícil acesso às concessões públicas de radiodifusão no país, cujas leis são as mesmas desde a Constituição de 1988.

Segundo o projeto Donos da Mídia, realizado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom) desde 2002, atualmente 41 grupos e redes de telecomunicações possuem abrangência nacional, aglomerando 551 veículos. Desse total, 324 veículos tem em seu quadro de diretores e sócios 271 políticos brasileiros.
Essa concentração de veículos em figuras públicas e políticas reflete diretamente na qualidade do conteúdo oferecido pelas redes em âmbito nacional, estadual e municipal.
Dessa maneira, discutir alternativas de comunicação contraria o fluxo de comunicação social esperado pelos proprietários de grandes veículos, sendo capaz de instaurar novos paradigmas de atuação social.

Nesse contexto, o graffiti associado à mídia radical pode ser compreendido como uma plataforma que privilegia discursos contra-hegemônicos, de combate ao racismo e de afirmação da vida nas periferias, já que esses discursos não serão reportados por meio da mídia tradicional, por conta de seus interesses políticos e econômicos.

Para o pesquisador britânico John Downing, a definição de mídia radical supera a discussão conceitual pura e simples do que é mídia. Ele acredita que o termo “radical” se faz necessário porque vivemos um momento de urgência pelo “ativismo da mídia diante dos bloqueios à expressão pública”.

A cultura popular torna-se chave para compreender a mídia radical como um processo social, estético, congnitivo e tecnológico, pois permite que agentes sociais desprovidos de concessões públicas e equipamentos caros de reprodução possam se apropriar autonomamente de espaços e plataformas públicas – como são os muros e paredes das cidades – para manifestar-se e exercer seu direito à liberdade de expressão.

Isto acontece porque, apesar de muitas vezes a cultura popular reproduzir discursos opressivos hegemônicos como o machismo, racismo, sexismo, homofobia e/ou xenofobia, ela ainda é uma forma de manifestação social e cultural que independe do poder público ou de instituições sociais para existir.

Sendo assim, o caráter democrático do graffiti vem para reforçar a noção de que produtores e consumidores de cultura são, com frequência, os mesmos agentes sociais na mídia radical. Ele passa a cumprir um papel inovador de agitador cultural.

Foto de capa: Keytyane Medeiros

Keytyane Medeiros é autora deste texto e colaboradora da Revista Lampião

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