Salar de Uyuni, Bolivia, 2006

Diário de uma bicicleta

O brasileiro Arthur Simões tem grandes histórias para contar. Com apenas 24 anos, ele realizou em 2005 uma volta ao mundo de bicicleta, percorrendo 46 países em mais de três anos de viagem. O roteiro privilegiou locais mais afastados e desconhecidos, pois o objetivo de Arthur era conhecer pessoas, culturas e histórias. Em busca do desconhecido, o jovem trouxe na bagagem lições e aprendizados, e compartilhou tudo isso conosco nesta entrevista.

Estrada alagada, India, 2007

Quando surgiu a ideia de dar dar uma volta ao mundo de bicicleta?

Pedalo desde criança e ao longo dos anos a bicicleta sempre esteve presente em meu dia-a-dia. Quando estudava Direito, conheci o cicloturismo, o viajar se locomovendo sobre uma bicicleta. Após algumas viagens por estradas brasileiras, soube de um alemão que estava prestes a concluir sua volta ao mundo de bicicleta e aquilo me encantou. Desejei fazer o mesmo, mas estava ciente das dificuldades que me separavam deste objetivo, então deixei esta ideia de lado. Porém ela continuou lá, esperando a hora propícia para poder retornar à superfície.

Somente após formado é que percebi que vivia o momento certo para realizar essa longa viagem. Deveria deixar tudo para trás, profissão, amigos, família, teto e rotina, para simplesmente seguir rumo ao desconhecido e viver sem endereço pelos próximos anos.

O que te motivou a começar essa jornada?

É difícil traçar o porquê desta viagem. Poderia recorrer a termos como “realização de um sonho” ou algo assim poético, mas não seria real. Creio que fui movido pela curiosidade. Queria dar de cara com o desconhecido – e o desconhecido dentro de mim mesmo -, olhá-lo nos olhos e aprender com minhas experiências diante da vida.

Quais foram as maiores dificuldades durante toda a trajetória?

A decisão de realizar uma viagem como essa talvez seja a maior dificuldade da jornada. O desapego em relação a tudo e todos não é algo fácil, mas é um pré-requisito para uma viagem de alguns anos de duração. É importante saber que a viagem começa antes da partida, caso contrário ela poderá ficar pesada demais.

Já na estrada, os desafios são muito semelhantes aos que qualquer pessoa enfrenta em seu dia-a-dia, com a diferença de que quando se está sozinho, sua segurança depende exclusivamente de você mesmo e de suas decisões. Há necessidade de lidar bem com todos os sentimentos que brotam dentro de si, caso contrário eles podem levar qualquer viajante a perder o controle sobre si próprio.

Você sentiu medo, solidão, ou algum sentimento ruim durante o trajeto?

Eu senti medo, felicidade, solidão, satisfação, dúvidas, ansiedade, plenitude e muitos outros sentimentos durante estes três anos de viagem, isso era inevitável, o segredo recai sobre como lidar com cada um deles. Aprender com o medo, para tirar proveito dele, entender o sentimento de solidão, não alimentar a ansiedade e cultivar a felicidade com as pequenas coisas do caminho facilitam e engrandecem a viagem.

O que significa “viajar” ou conhecer novos lugares para você?

A viagem é uma espécie de vida em miniatura, especialmente quando realizada de forma solitária. E a viagem a que me refiro não é a viagem dos turistas, mas sim a viagem do viajante, que vai para o mundo aberto a novas experiências, sem saber o que encontrará pela frente e, muitas vezes, nem se irá voltar. A viagem é como uma vida em miniatura porque que tem começo, meio e fim, dores e alegrias, medos e vitórias, decepções e superações e, acima de tudo, muito aprendizado.

Cada pedra no caminho é uma lição, cada pessoa encontrada é uma troca, cada adeus uma superação. Quando se percebe que é nessas pequenas coisas que está a maior beleza da viagem, se aprende que viajar é aproveitar o caminho e não almejar o ponto de chegada.

Qual foi o lugar mais incrível ou a melhor experiência que você teve durante a viagem?

É difícil definir apenas um. Houve muitos momento marcantes, mas como eles são diferentes, cada um tem sua beleza particular.

Como minha busca era pelo novo e o desconhecido, os melhores momentos ocorreram em países mais fechados, quase isolados do mundo, onde eu consegui encontrar um costume autêntico e uma população extremamente hospitaleira e acolhedora. Esses países foram Mianmar e Iêmen, nações que permaneceram praticamente isoladas do mundo por posições políticas nas últimas décadas, isso fez com que a cultura desses locais permanecesse quase intocada. Ambos eram países muito religiosos e com valores muito elevados, especialmente onde o dinheiro ainda não estava acima de todas as outras coisas.

Quais foram os maiores aprendizados que você tirou convivendo com tantas culturas diferentes durante esses anos?

Aprendi que não sei de nada. Quanto mais eu aprendia e descobria sobre o mundo, mais dava conta da minha ignorância e pequenez diante de tudo. O contato com tantas culturas me deu uma visão panorâmica da cultura ocidental, na qual estamos inseridos, e isso me ajudou a perceber o que é “invisível” para a maioria das pessoas, por considerarem “normal” uma série de atos que já se tornaram mecânicos.

Muitas das coisas que julgamos muito importantes podem não fazer sentido nenhum numa outra sociedade. Por isso, antes de julgarmos alguém ou alguma cultura, temos que antes olhar para nós mesmos e perceber que os estranhos e errados talvez sejamos nós.

Quais são os seus planos para o futuro?

Não traço muitos planos. A vida muda constantemente e creio que se nos concentrarmos no presente e em fazermos as decisões certas, não precisamos nos preocupar com o futuro.

Como gosto muito de viajar, aprender coisas novas e compartilhar minhas experiências, trago um pouco de tudo isso naquilo que faço. Desta forma, creio que novas viagens virão, mas o destino ainda não sei dizer.

Renan Fantinato é autor deste texto, colaborador da Revista Lampião e jornalista

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