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Do meu vício: a arte de viajar

Tudo começou bem cedo. Minha mãe sempre me disse: “eu viajei pra Natal com você na barriga!”. Já tinha andado de avião mesmo antes de nascer. Vivi toda minha infância entre uma cidade e outra, uma vez que nasci e cresci em Franca, mas não tenho parentes por lá. É uma vó em Uberaba, a outra em Jaboticabal, uns primos em Ribeirão, outros em São José dos Campos. A rodovia me trazia de tudo um pouco: felicidade por estar indo vê-los e tristeza profunda na volta por saber que o feriado ou as férias acabaram. E não é que até hoje é assim? Admito que nunca tirei o pé da estrada. Quando me mudei pra Bauru em 2011 pra estudar na UNESP tudo se consolidou mais ainda.

Com o tempo, fui aperfeiçoando. Viajar é como tudo na vida: você aprende, pega as manhas, para de cometer os mesmos erros bobos e vai se tornando um expert. Meus pais sempre gostaram de viajar pelas redondezas de Franca, Furnas, Serra da Canastra, Thermas dos Laranjais. E também pras praias do litoral de São Paulo. Com isso aprendi que o que temos perto também pode ser lindo e interessantíssimo. Não precisamos ir muito longe pra conhecermos coisas, pessoas, lugares.

Mas ir longe, ah, ir longe é libertador. Pegar um avião e desprender de todas as amarras que insistem em apertar cotidianamente é definitivamente libertador. Quando chego ao destino, penso: “estou tão longe que me sinto livre”. Afinal de contas, estar longe é estar perto de si mesmo. E não existe liberdade maior.

Há exatamente um ano, parti para a maior aventura da minha vida: meu intercâmbio no Chile. Lembro de sempre dizer pros meus amigos quando o intercâmbio ainda era somente uma ideia brotando na cabeça: “meu, não sei se consigo fazer um intercâmbio, fico pensando no momento em que eu sentar no avião, tenho certeza que tudo que vai passar pela minha cabeça é ‘o que eu to fazendo aqui???’”. Mas essa certeza foi uma das mais furadas da minha vida. Quando eu sentei naquele avião, sabia muito bem o que estava fazendo ali. E fui tão segura disso que, admito, não derrubei uma lagriminha sequer (e aos amigos e família amados logo digo que isso não muda o que eu sinto por vocês, viu? haha).

Digo e repito: estar longe é libertador. Mas tem seus contras, como tudo na vida. A saudade aperta, ficar doente traz aquela vontadezinha de voltar pro colo da mãe, nos dias em que você acaba sem ter nada pra fazer e fica sozinho no quarto bate uma deprê. Mas é aí, é justamente aí que vem a segunda etapa pós-libertação: a do aprendizado. Você aprende, na marra, na fé e na coragem, a se virar, a controlar os sentimentos e suportar a dor. E se estar longe é estar perto de si mesmo, durante o aprendizado, é estar em plena sintonia consigo próprio. É você e você.

Até que você conhece novas pessoas. E algumas delas (poucas, no fim das contas) vêm pra ficar. A maioria está na mesma situação que você. Viajando, vivendo novas experiências, distanciando-se de tudo e se aproximando de si. E essa é a terceira etapa importante. As pessoas.

Daqui pra frente, não tem como teorizar muito. Cada um é cada um. E cada viagem é uma viagem. Tenho amigos que amaram o intercâmbio, outros que odiaram ou simplesmente não curtiram muito. Depende. E a vida é assim mesmo, não é? Essa é a graça. Pra mim, a semente que meus pais plantaram em mim desde meus primeiros dias de vida e as ótimas experiências que as muitas viagens que já fiz me proporcionaram, tudo isso me trouxe um vício. Vício mesmo. De não poder ficar sem. Não posso ficar sem viajar! É mais forte que eu, eu juro!

Quem é viciado sabe do que eu to falando. Não posso ver um anúncio de promoção de passagens que já clico e dou uma pesquisada. Todo dinheiro que sobra no final do mês vai direto pra “poupança viagem”. Aquele rodízio de japa que todos meus amigos estão indo? Ah, não vou, já são 60 reais a mais pra próxima viagem. E assim vai. Viajar se tornou inspiração, motivação e realização. Não dá pra evitar.

O duro é quando acaba. Fazer o caminho de volta é reaproximar da rotina, dos problemas, dos cansaços. Mas não necessariamente redistanciar de mim mesma. De cada viagem, trago comigo um pouquinho dos lugares e pessoas que conheci. Nas fotos da parede do meu quarto, vejo o reflexo de todas as etapas que passei e entendo que a última dela é a que mais dói, mas também é a única certeza: estou e estarei sempre de volta.

Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues

Jornalista em (trans)formação, apaixonada por escrever, fotografar e curtir um som. Acredita que a beleza está nos detalhes e que a vida faz mais sentido durante uma boa viagem.

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