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Em tempos de crise, CBF vê Copa América como “remédio a curto prazo”

Na fria Temuco, 670 km ao sul da capital Santiago, a Seleção Brasileira de Futebol fez uma não menos fria estreia diante do Peru, pela Copa América. O gol marcado por Douglas Costa após belo passe de Neymar não foi suficiente para esquentar o ânimo do torcedor brasileiro.

A equipe comandada pelo técnico Dunga já havia encarado frieza recentemente, desta vez por parte de seu próprio público. Há duas semanas, no Allianz Parque, diante do time B do México, aconteceu o primeiro jogo em solo brasileiro após o vexatório 7 a 1 do Mundial. E o comportamento da torcida, calada e dispersa durante boa parte da partida, deixou claro: o distanciamento entre povo e seleção é grande. Dias depois, contra Honduras, em no Beira-Rio, não foi diferente: ingressos sobrando na bilheteria e torcida impaciente durante a peleja.

A CBF aposta alto na Copa América. Vencer um torneio de peso continental e tradição traria de volta uma parcela do respeito com o qual a seleção estava habituado e, muito mais do que isso, abafaria as críticas cada vez mais pesadas que recaem sobre a confederação. A imagem da CBF e do futebol brasileiro vem em queda livre desde o desastroso desfecho da Copa do Mundo. Somado a isso, estão as recentes denúncias de corrupção envolvendo diversos nomes de alto escalão da organização, entre eles José Maria Marin, presidente até abril deste ano e preso desde maio na Suíça.

E não para por aí. Antecessor de Marin, Ricardo Teixeira, que presidiu a CBF entre 1989 e 2012, foi indiciado pela Polícia Federal pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, falsidade ideológica e falsificação de documento público. Entre 2009 e 2012, período em que foi presidente do Comitê Organizador Local da Copa de 2014, o ex-mandatário movimentou a suspeita quantia de R$ 464,56 milhões em sua conta. Nesta semana, mais uma acusação: a revista americana World Soccer publicou que Teixeira teria recebido propina superior R$ 100 milhões para votar no Qatar como sede da Copa de 2022.

A crise se estendeu ao ponto mais temido pelos mandachuvas da bola no Brasil: os patrocinadores. Fenômeno de faturamento nos últimos anos – 2014 marcou recorde de faturamento, contabilizando receita de R$ 519 milhões – a CBF tem em sua lista de parceiros nomes de peso como Vivo, Guaraná Antarctica, Chevrolet, Itaú, Mastercard, Samsung, Gillette, Gol, Unimed, Michelin e Nike, esta última também envolvida em denúncias. Marco Polo Del Nero, atual presidente, marcou às pressas uma reunião com os investidores para acalmá-los e garantir resultados dentro e fora de campo.

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Del Nero: preocupação é não perder verba “gorda” (Foto: Gazeta Press)

“Dona” dos rumos do futebol brasileiro juntamente com CBF, a Rede Globo também se mostra preocupada com a situação. Ao perceber a queda de popularidade da Seleção Brasileira nos últimos anos, refletida nos índices de audiência, a emissora apostou alto nas transmissões de jogos da Champions League, competição da qual tem direito exclusivo na TV aberta. Durante os jogos, é clara a intenção de aproximar o brasileiro de jogadores da seleção em destaque na Europa, como Neymar, Daniel Alves, Thiago Silva e David Luiz. Fenômeno dentro de campo e também no marketing, o ex-santista recebe tratamento de rei nos programas globais.

Importante lembrar que a Globo também tem motivos de sobra para se preocupar com os rumos das investigações de corrupção no futebol. O empresário J. Hawilla, de relações estreitíssimas com a emissora – ele é dono da TV TEM, uma das maiores afiliadas globais no interior paulista – é réu confesso de extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça. A Traffic, empresa de marketing esportivo da qual é detentor, está envolvida em pagamento de propinas em acordos de marketing e transmissão de jogos das competições que intermedia, como a Copa do Brasil, por exemplo. A empresa também teve exclusividade na comercialização dos direitos internacionais da Copa do Mundo de 2014.

A atenção dada à Copa América vem sendo maior do que a habitual. Para Globo e CBF, a competição continental é a solução a curto prazo para amenizar tantos problemas, trazendo a satisfação momentânea da mídia, do torcedor e dos patrocinadores. Uma mudança brusca de foco é exatamente o que os chefões do futebol brasileiro desejariam para o momento.

A aposta em Dunga, desafeto declarado da emissora durante sua primeira passagem na Seleção, pode se explicar pelo fato de o capitão do tetra ter a capacidade de montar times altamente competitivos e pragmáticos, que priorizam o resultado a qualquer custo – nestes moldes, Dunga já levou o Brasil ao título da Copa América e da Copa das Confederações. A mensagem é clara: é hora de levantar taça e recuperar respeito e credibilidade antes de qualquer coisa, e isso nada tem a ver com a real reconstrução do futebol brasileiro.

Estevão Rinaldi

Estevão Rinaldi

Jornalista formado pela Unesp/Bauru. Interiorano tentando a sorte na capital. Ainda descobrindo o que espera (fazer) da vida. Quanto mais o tempo passa, menos descarta possibilidades. Ama futebol, música, papo existencial de bar, tempo frio e madrugada.

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