de gravata e unha vermelha

EntrevistadXs “De gravata e unha vermelha”

Um país que ainda tem dificuldade em utilizar o termo presidenta para se referir à primeira mulher eleita ao cargo máximo da República, utilizando a esfarrapada desculpa de que o termo não existe ou é gramaticalmente incorreto será capaz de compreender a diversidade sexual de sua população? Acredito que não e, exatamente, por isso o documentário De Gravata e Unha Vermelha (2015, 86 minutos) mostra-se tão essencial.

A diretora Miriam Chnaiderman reuniu uma série de entrevistas com pessoas que vivem sua sexualidade de forma distinta do padrão heteronormativo de nossa sociedade machista e patriarcal (transexuais, travestis, adeptos do crossdressing, etc.). O documentário perpassa o universo de pessoas comuns e celebridades. Temos relatos, por exemplo da cartunista Laerte, do cantor Ney Matogrosso e da performancer Rogéria.  Fica evidente a diferença de tratamento recebida por famosos e anônimos quando sua sexualidade está em jogo. Enquanto celebridades desfrutam do privilégio de terem suas escolhas consideradas como uma peculiaridade ou excentricidade, os anônimos que se veem na mesma situação sofrem de forma mais intensa com os preconceitos da sociedade, uma vez que suas escolhas são consideradas erradas, doentias ou imorais de forma direta e agressiva mesmo por seus familiares e “amigos”.

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O desconforto da sociedade com os anônimos que fogem aos seus padrões deriva da proximidade que essas pessoas têm com o que podemos denominar de vida quotidiana ou normal de seus pares. Enquanto cantores, escritores ou atores são concepções abstratas de vida, seu vizinho é um distúrbio em sua normalidade real e tangível. Nesse sentido o documentário faz um ótimo trabalho ao tratar dessa dicotomia. Em especial, a entrevista com a cartunista Laerte demonstra essa problemática, quando ela comenta sobre seus “privilégios” por ser famosa.

Compreendemos, por fim, que o “diferente” é igual ao “normal”, o que nos falta é conhecer o universo do outro para poder o compreender, sem julgamentos prévios ou a partir de nossa tendência em classificar o mundo a partir de dicotomias, (bem e mal, nós e eles ou macho e fêmea).

Foto de capa: Divulgação

Rafael Barizan

Rafael Barizan

Graduando em direito, leitor voraz e rabugento e um existencialista em construção de alma barroca.

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