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Gente sem-vergonha!

Dreads, dentes de ouro, negro, forte, bem articulado, professor universitário e pesquisador com estudos sobre os efeitos das drogas no cérebro humano, o neurocientista Carl Hart entra na sala de conferência de um luxuoso hotel. Varre a sala de um lado ao outro com o olhar de estrangeiro e dispara: “olhem ao lado de vocês. Não há um negro. Vocês deveriam sentir vergonha!

carl hart

A imprensa divulgou que o professor Carl Hart foi alvo de discriminação no hotel onde fez uma palestra em São Paulo. A informação foi desmentida pelo próprio professor, mas a crítica contra o racismo se manteve, não só a casos “perversos”, como ele se refere à suposta discriminação que noticiaram, mas ao racismo no dia-a-dia que está presente na periferia (Foto: The Rapidian)

Mesmo sem as placas do racismo institucional dos EUA e da África do Sul, nessas bandas, as pessoas logo cedo aprendem onde são os seus lugares. Homens brancos nas direções de bancos, empresas e partidos políticos. As mulheres brancas nos shoppings e na direção dos serviços domésticos. Os homens negros na cadeia, quando conseguem escapar do extermínio. E as mulheres negras nos trabalhos domésticos.

Essa tipologia social ficou congelada ao longo do século passado.

Negras e negros nas universidades públicas, nem pensar! As cotas eram para jovens brancos das classes média e média alta — afinal, os milionários e as milionárias  continuam estudando fora do país.

Os cursos superiores desde o século XIX eram reservados para os filhos da elite. O objetivo era formar quadros dirigentes para a condução do estado. Medicina – Salvador e Rio de Janeiro — e Direito – São Paulo e Recife — eram os cursos para formar os doutores que desenhariam a fisionomia do estado nacional.

Nesses cursos foram reeditadas as teses do “racismo científico” articuladas nos laboratórios colonialistas da Europa: antropologia criminal, darwinismo social e eugenia. Elas foram as bases conceituais para a segregação racial e radical a partir de 1850, data da fundação do Estado moderno brasileiro, com a edição da Lei da Terra.

A leitura atenta das reportagens escritas pelos jornalistas Euclides da Cunha (Os Sertões) e Lima Barreto (sobre os processos de higienização da cidade do Rio de Janeiro) mostram as linhas gerais do pensamento brasileiro que prevaleceu, sem reservas, entre 1850 e 1950.

Entre os anos de 1870 e 1930, três milhões de europeus ingressaram no país, em uma tentativa das classes dominantes de embranquecer a população. Eram proibidas as entradas de afrodescendentes livres e asiáticos. Estes tiveram permissão a partir da década de 10 do século passado.

João Batista de Lacerda sintetizou, em Londres, no ano de 1911, o sonho das elites dirigentes: com os esforços empreendidos pelo governo, no processo de transição demográfica, o país estaria livre da presença física e cultural dos descendentes de africanos em 100 anos. Tradução: em 2011.

Ao longo dos anos 10 e 20 do século passado, os extensos editoriais do jornal O Estado de São Paulo pregavam a necessidade de se criar uma universidade nos moldes europeus, para a formação da juventude branca, que desenharia o futuro. Essas são as bases conceituais da Universidade de S. Paulo (USP) fundada na primeira metade do século XX, para atender à demanda de formação de quadros dirigentes.

A situação começou a mudar no início dos anos de 1970.

Uma geração de filhos e filhas de empregados domésticos ingressa no ensino superior. Revisitam as teses produzidas sobre as relações raciais nos últimos 200 anos. Essa geração faz uma “pequena revolução epistemológica”: de “objeto de pesquisa” passam a ser “sujeitos na pesquisa”. Abertas as portas, a academia assistiu, de boca aberta, à emergência de uma intelectualidade negra, com robusta produção e autonomia intelectual, o que passou a incomodar ainda mais.

A Associação Brasileira de Pesquisadores (as) Negros (as) (ABPN) emerge nesse cenário de consolidação teórico-conceitual.

Com as políticas públicas dos últimos anos, a universidade assistiu ao ingresso de um contingente de população negra, “como nunca antes na história deste país”. Assim como as resistências dos segmentos conservadores: racistas, machistas, xenófobos, homófobos.

A ampliação da ecologia humana das universidades públicas começa a provocar a revolução conceitual que se espera: mudanças nas concepções de ciência (ainda branca, ocidental, masculina e classista), no ensino (ainda alienado da realidade social), na extensão (ainda restrita aos muros da universidade) e na permanência estudantil (ainda com cotas exclusivas para alunas e alunos oriundos da classe média).

Prevê-se o ingresso de milhares de estudantes afrodescendentes nos próximos anos, nas universidades públicas federais. Sem sombra de dúvidas, esse cenário vai mudar, com a emergência dos coletivos negros, dos grupos de pesquisa, dos estudos especializados, da inclusão de temas contemporâneos, das pesquisas sobre extermínio de jovens negros e pobres, o que exigirá novas políticas públicas de acolhimento desse contingente, para superar a existência do racismo institucional, mas isso é tema para uma nova coluna.

Eles, portanto, não sentem vergonha, apenas um pequeno incômodo, que vai crescer com o tempo, graças às mudanças em curso no país que são, pelo menos para a parcela negra, irreversíveis.

Carl, desculpe-nos por essa gente sem-vergonha!

Foto de capa: Olhe os muros

Juarez Xavier

Juarez Xavier

Professor do curso de Jornalismo na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Unesp de Bauru e coordenador do Núcleo Negro da Unesp - Pesquisa e Extensão

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