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Holofote: Cynara Menezes

Cynara Menezes é a socialista mais morena do Brasil. Conhecida por abordar temas polêmicos, a jornalista mantém seu blog vinculado à revista Carta Capital. A página no facebook, sempre movimentada, demonstra a inquietude de alguém que não pode (e nem deve) deixar de ser crítica. E aí, como já é de se esperar, outras críticas aparecem de todos os lados, pro bem ou pro mal. Mas é isso mesmo que ela quer: incomodar.

Nós conversamos com a Socialista Morena sobre essa relação com os leitores, as críticas, alguns assuntos relevantes do ano passado e deste ano e, claro, sobre socialismo.

Se o coração bate do lado esquerdo e o socialismo brasileiro é um socialismo moreno, a Cynara é tanto um quanto outro: de esquerda e socialista morena. Conte um pouquinho de como surgiu a ideia do blog e sobre o porquê do nome “Socialista Morena”. O que é o socialismo moreno de Darcy Ribeiro? Por que você se apropriou da expressão?

Não é uma apropriação, é uma homenagem. Sou fã de Darcy e volta e meia publico textos dele no blog. Sempre curti as ideias de Darcy e de Brizola, sobretudo em relação à educação, à revolução necessária que nunca se fez neste setor no Brasil. Me encanta a ideia de um socialismo “moreno”, nosso, que não siga modelos pré-existentes. Era isso que Darcy e Brizola queriam dizer com socialismo moreno: um socialismo que nasce à imagem e semelhança do Brasil, um país mestiço. Lamentei muito o fato de eles nunca terem podido aprofundar teoricamente este socialismo nosso e, quando decidi fazer um blog para mim, imediatamente veio à memória Darcy Ribeiro. Para Darcy, não existe socialismo sem democracia. É exatamente assim que eu vejo também. Darcy é meu mestre.

O blog existe desde quando? De que maneira você encontrou espaço na internet (tão concorrida, tão cheio de tudo um pouco) para fazer seu trabalho? Quais são as principais dificuldades e as delícias de um jornalismo online?

O blog entrou no ar em 19 de setembro de 2013. Tenho postado até agora nos intervalos do meu trabalho como repórter da revista CartaCapital, em meu tempo livre. A partir deste ano, porém, me dedicarei com exclusividade ao blog. Com isso, terei oportunidade de fazer mais reportagens. Acho que a maior dificuldade hoje é encontrar fontes de financiamento exclusivas para o online – espero descobri-las… A maior delícia é o retorno imediato que tenho dos leitores. É gratificante ver seu trabalho sendo lido e suscitando reações, mesmo as negativas.

Vimos recentemente um grande ativismo político vindo das redes sociais. Todo mundo se “soltou” de certa forma e levantou suas bandeiras sem medo e sem sair de casa. É possível ser um militante virtual? Como você vê esse fenômeno?

Só acredito na militância virtual como forma de chamar a atenção para determinado assunto, mobilizar. Lugar de exercitar a cidadania é na rua. Mas as redes sociais têm se mostrado úteis como ferramenta de conscientização da juventude. Um dos maiores erros do PT, na minha opinião, foi não ter investido mais em conscientização política.

Falar de política “é coisa séria”. É considerado uma coisa séria. Mas, em alguns casos, você trata o assunto com certo humor. Humor e política tem a ver? Como conciliar? E mais que isso: como transformar um assunto “que não se discute” (assim como futebol e religião) em algo presente no nosso cotidiano (e não só de quatro em quatro anos)?

Acho que mau humor é uma característica da direita. Esquerda que se preze sempre utilizou o bom humor como arma. Lembre-se do Henfil, por exemplo… Acho que uma mensagem bem-humorada vale por mil palavras de ordem. As redes sociais têm mostrado que, ao contrário do que diz o senso comum, as pessoas gostam de política, de discutir política. Sabem que disso depende a sua vida.

E se falar de política é coisa séria, sempre causa polêmica. Ainda mais pelo fato de você ser uma figura pública, jornalista, com grande repercussão nas redes sociais. Sempre tem alguém “vigiando” a jornalista Socialista Morena. Então, de que maneira você lida com a crítica?

A crítica faz parte. Já respondi mais às provocações, mas hoje, com o botão “silenciar” do twitter, apenas ignoro as que não valem a pena responder. Seria impossível, de qualquer maneira, não ter reações contrárias ao meu trabalho. Se não houvesse gente chateada comigo, seria um sinal de que não estou conseguindo transmitir a minha mensagem, que, é claro, incomoda muita gente. Se não incomodar é porque não consegui transmitir direito. Um ponto interessante é que não é apenas a direita que me ataca. Tenho sofrido ataques, por exemplo, de representantes de certo feminismo com o qual não concordo por achar conservador. Os conservadores, mesmo que se digam de “esquerda” (um contra-senso, porque a esquerda jamais pode ser conservadora) são o meu alvo e sempre ficarão incomodados comigo.

Atualmente, vemos na América Latina um cenário de predomínio de presidentes considerados de esquerda: Evo, Cristina, Bachelet, Maduro, Vázquez e até mesmo Dilma. De que forma essa predominância pode contribuir para uma aproximação desses países latino-americanos?

Vejo muita integração entre os presidentes da América do Sul. Acho que o fato de todos eles estarem neste espectro da centro-esquerda contribui. É como se fosse um clube onde todo mundo se ajuda…. Nunca vi a América do Sul tão unida como agora.

Falando em presidentes latino-americanos, temos três presidentas no comando dos principais países: Bachelet no Chile, Cristina na Argentina e Dilma no Brasil. Como você vê a participação da mulher na política latino-americana e também no Brasil mais especificamente?

Embora as mulheres estejam na presidência, o legislativo ainda é dominado pelos homens. Portanto, não vejo com muito otimismo. Ainda falta muito para as mulheres chegarem lá. No novo ministério de Dilma Rousseff, as mulheres inclusive perderam o destaque em relação ao primeiro mandato… Acredito que seja preciso realizar campanhas para atrair a mulher para a política. Hoje o partido que tem mais mulheres combativas em minha opinião é o PCdoB. Não sei como o partido conseguiu isso, mas sem dúvida é um modelo a ser seguido pelos demais.

E em relação a partidos de esquerda, temos o PSOL, que teve um importante papel nas últimas eleições. A Luciana contribuiu para o debate político e levantou questões que nenhum outro candidato se quer citou. Você acredita que existe possibilidade de que um partido como o PSOL chegue ao poder, nas instâncias de Governador e Presidente?

Acho muito difícil que o PSOL chegue um dia à presidência, infelizmente. Gosto muito do partido e gostaria de vê-lo ocupar cargos majoritários. Espero que esteja errada, mas o Brasil não está preparado para as ideias do PSOL. Quem sabe se algum dia surgir uma liderança carismática no partido?

Há uma pergunta que está sempre presente nas discussões políticas, principalmente quando o assunto é socialismo. Agora, jogo a bomba pra você.  Existe a possibilidade, e de que maneira isso poderia ser feito, da implantação do socialismo, não só no Brasil mas também no mundo, em um futuro distante? Temos como fugir do capitalismo?

Eu escrevi um texto sobre isso no blog: Zen Socialismo. É a maneira como enxergo o socialismo. Não acredito em revolução, mas em revoluções. Não creio que o capitalismo vai acabar e tampouco que existirão países inteiramente “socialistas”. Acho que podem haver governos socialistas, isso sim. Vejo o socialismo e o capitalismo como opostos complementares, Yin e Yang. Se não fosse pelo surgimento do  socialismo, o capitalismo seria ainda mais cruel. Enquanto houver injustiças no mundo, sempre existirá socialismo e socialistas. Somos a consciência do capitalismo, independentemente de estarmos ou não ocupando o poder. E digo mais: estou enxergando um recrudescimento das ideias socialistas em todo o mundo. Não é à toa a vitória de Alexis Tsipras na Grécia. Outros líderes socialistas irão surgir na Europa. É o velho fantasma rondando… Espero que este socialismo que está renascendo venha novo, fresco, jovem. As lições foram aprendidas com os erros do passado.

Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues

Jornalista em (trans)formação, apaixonada por escrever, fotografar e curtir um som. Acredita que a beleza está nos detalhes e que a vida faz mais sentido durante uma boa viagem.

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