DSC_0272

Holofote: Mariana Conti

Mariana Conti tem 29 anos, é formada em Ciências Sociais pela UNICAMP, com mestrado em Sociologia. Além disso, ela também é funcionária pública da universidade. Aos 23 anos, saiu como candidata à vereadora pelo pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e conta rindo que “não sabia muito bem o que estava fazendo”. O fato é que em 2012 foi a mulher mais votada da história de Campinas. Abaixo, Mariana fala das lutas e da importância da participação das mulheres na política.

Mariana, conte um pouquinho da sua militância.

Bom, eu comecei minha militância no movimento estudantil, logo que eu entrei na faculdade. Lá eu tive contato com o movimento feminista e também com o PSOL. Em 2006, entrei para o partido, pois vi muito incentivo à participação das mulheres. Em 2008, eu sai candidata a vereadora dentro de um projeto coletivo. Eu era tão novinha, tinha só 23 anos! Eu não sabia muito bem o que estava fazendo! (risos). Mas foi uma experiência bem interessante, porque foi uma campanha construída coletivamente. Depois, em 2010 e 2014 eu fui candidata à deputada federal e em 2012 à vereadora novamente.

Como você estruturou suas campanhas?

Nós sempre criamos espaços coletivos para pensar. A verdade é que nós não fazemos só campanha, nós militamos o tempo todo, né? Incorporamos as lutas que estão acontecendo e levamos para a campanha, claro. Então, as campanhas estão relacionadas com o cotidiano das lutas mesmo. E nós fazemos muito uma campanha de contato, uma campanha militante, com pessoas voluntárias. O desafio é relacionar as questões e as demandas que as pessoas têm e transformá-las em ações políticas concretas.

E você pensou em ser representativa para as mulheres?

Com certeza, nós temos levado a sério a ideia de representante. Existem bandeiras e programas históricos do movimento feminista que eu concordo, que trabalhamos e assumimos nas campanhas.

Você sofreu preconceito por ser mulher?

É sempre uma dificuldade. Mesmo que nós mulheres estejamos o tempo todo lutando e sejamos muito forte, é difícil. Vivemos em uma sociedade machista e os espaços de poder são majoritariamente ocupados pelos homens. E quando você é uma figura pública mulher, ou quando você tem uma candidatura, você tem que lidar com muitos preconceitos. O preconceito por você ser mulher e por isso ser frágil, por termos que demonstrar que sabemos e temos conhecimento em uma patamar superior ao dos homens, como se tivéssemos que provar o tempo todo que somos capazes e mais do que os homens. Não é fácil.

Como você enxerga o sistema de cotas para mulheres em partidos políticos?

Eu defendo esse sistema de cotas. Elas são importantes. Até porque se a mulher nunca chegar a essas instâncias, de participar politicamente, de se candidatar, de fazer campanha, ela nunca vai saber como é ter esses papeis. Mas, infelizmente, eu acho que não resolve. Muitas vezes as cotas são preenchidas de maneira formal. Então eu vejo que o problema é muito maior. Nós precisamos incentivar a participação efetiva das mulheres, elas não podem estar ali só para cumprir a cota.

E a participação política das mulheres que chegam às instâncias de poder?

Bem, na Câmara Federal as mulheres são 10%. Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo é menos que isso. Na verdade, nós temos uma situação de poder em que os homens falam por nós. Existe um vazio muito grande nesse sentido. Eu não vejo uma mulher que seja representativa em âmbitos estadual e federal. Não existe uma figura feminina de referência, como por exemplo é o Jean Wyllys na questão LGBT. Somos muito pouco representadas e aquilo que existe de representação ainda está muito aquém do que poderia ser feito.

E por que você acredita que isso acontece?

A nossa sociedade é machista, por isso tudo é feito para dificultar o acesso da mulher às instâncias de poder. Nós temos muita dificuldade em ocupar o espaço público porque nós não fomos ensinadas a isso. As mulheres têm que cumprir o papel da esposa, da mãe, porque historicamente o ensino dos filhos é papel da mulher. Assim, temos muitas dificuldades em militar e em assumir uma carreira política. Mais que isso, a forma como são organizadas as campanhas eleitorais é muito difícil, porque elas são baseadas no dinheiro, no poder aquisitivo. E a maior parte dos partidos é controlada por homens, as cúpulas são homens, as lideranças são homens. É um conjunto. As mulheres querem, mas nós precisamos fazer muita política pra furar essas barreiras. A luta pela descriminalização e legalização do aborto, por exemplo, é bastante importante e tem que ser levada à diante. A mulher tem que participar com consciência de quais são os seus interesses.

Apesar de você não ter sido eleita, você foi a mulher mais votada da história de Campinas, com 5953 votos. Qual a importância disso?

Eu não consigo medir muito isso, sabe. Mas eu acho que é importante, porque a proposta da minha campanha é genuína, é uma proposta de uma política diferente. E me deixa muito esperançosa. Eu acho que eu posso servir como exemplo, apesar de não ter sido eleita. As pessoas esperam figuras públicas que sejam atuantes e que sejam representativas na política. A ideia da representação é importante. Ou seja, os políticos têm que ser uma voz que está representando a voz de outras pessoas, os anseios coletivos, o projeto coletivo. E eu tento ser essa representante.

Por fim, quais são seus planos? Haverá uma próxima candidatura?

Ai, ainda é muito cedo pra saber (risos). Meu plano para o futuro é de continuar na luta. Afinal, eu não dependo de mandato pra exercer política. Pra mim, a política vai muito além dos políticos, ela é tudo aquilo que vai no sentido de democratizar o acesso às instâncias do poder, é tudo aquilo que existe no nosso dia a dia. Afinal, uma coisa é a política do Congresso, a da Assembleia, outra coisa é a política da vida real, né.

Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues

Jornalista em (trans)formação, apaixonada por escrever, fotografar e curtir um som. Acredita que a beleza está nos detalhes e que a vida faz mais sentido durante uma boa viagem.

Você também pode gostar de...

  • Bruno Lucena

    Socialista feminista, não sabe o que tá fazendo… Boa Campinas, essa é uma das vereadoras que elegemos.