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Liberdade de criação

A principal forma de comunicação visual antes da fotografia era a pintura. Até meados de 1830, os movimentos de pintura clássica eram os responsáveis pelo registro da realidade. Não se sabe exatamente a quem atribuir a invenção de uma câmera fotográfica, já que foi um processo de inúmeros estudos em diferentes épocas, mas a primeira fotografia de fato data de 1826, de autoria do francês Joseph Nicéphore Niépce.

O objetivo dos estudos para o desenvolvimento da fotografia era criar uma forma mais objetiva de registrar a realidade. “Quando a fotografia foi inventada, ela trazia o registro do real de uma maneira que o traço humano, a habilidade do pintor dificilmente conseguiria reproduzir. Então as pessoas passam a atribuir um papel para a fotografia que é o registro do real”, explica o fotógrafo e professor da PUC-SP, Cristiano Burmester.

E a pintura?

A fotografia liberta o pintor da função de transmissor da realidade. A arte clássica tinha como objetivo a verossimilhança. A arte moderna e principalmente a contemporânea mostram-se artes mais soltas, mais abstratas, devido não somente ao contexto histórico de mudanças rápidas na sociedade e no mundo, mas também à tecnologia da fotografia, que permitiu ao artista criar uma arte mais inovadora, através de movimentos de vanguarda, como o cubismo e o expressionismo. De acordo com o professor Cristiano, “a fotografia libertou o pintor de registrar o mundo exatamente como a gente o vê”.

Contudo, a pintura continuou a ser referência estética para a fotografia. As primeiras câmeras exigiam tempo de exposição mais longo, então as pessoas tinham que “posar” para tirar uma foto, da mesma forma que acontecia com um quadro: “até quase o século XX, a fotografia registrou o mundo como a pintura fazia, no sentido de enquadramento, do olhar, da pose”, explica o professor. Com o avanço da tecnologia, a fotografia se permitiu certas inovações. A fotografia instantânea permitiu um trabalho mais livre e mais espontâneo, ganhando uma independência de linguagem e podendo registrar um fragmento do tempo.

Fotografia sempre foi arte

A grande inovação da fotografia foi esse registro instantâneo do tempo e seu aparato tecnológico que permitia criar novas formas de comunicação visual. A questão da criação da imagem é um processo artístico, “no início, as pessoas acreditavam que pelo fato da câmera ser igual para todo mundo, todo mundo faria as mesmas fotos, mas a gente sabe que não é isso”, por isso, a fotografia não deixa de ser uma forma de expressão artística do autor.

Sua popularidade cresceu em meio ao movimento de arte modernista, mas foi na era da Arte Contemporânea que a ela ganhou um destaque maior e se consolidou como uma linguagem. Nesse momento, a fotografia passa a servir de inspiração – e até mesmo de material – para grandes artistas, como no caso de Andy Warhol, que se utilizou de retratos de personalidades, como Marilyn Monroe e Elvis Presley, e os pintou em telas, “a base daqueles quadros é fotográfica”, diz Cristiano.

Assim, a pintura começou a buscar referência na fotografia, que começou a ganhar um espaço maior dentro do movimento de arte contemporânea e dentro de museus e galerias. Ela é uma arte acessível, principalmente nesses tempos de Internet, em que qualquer um pode tirar uma foto. Para ser considerada arte, uma obra tem que ser relevante e pressupor um diálogo, além de requerer um olhar diferenciado, um novo ponto de vista, algo diferente sobre um tema da vida.

Nem toda fotografia é uma obra de arte, mas toda fotografia é resultado de um processo criativo e seu papel no desenvolvimento da arte contemporânea é inquestionável. A fotografia foi o que permitiu a reprodutibilidade da imagem e o que inspirou grandes artistas do movimento da Pop Art e hoje ganhou um espaço importante dentro do próprio mercado artístico.

Letícia Naísa é autora deste texto e colaboradora da Revista Lampião.

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