85th Annual Academy Awards - Red Carpet

A longa história entre o Oscar e o racismo

Steve Carrel, Bradley Cooper, Benedict Cumberbatch, Michael Keaton, Eddie Redmayne, Marion Cotillard, Felicity Jones, Julianne Moore, Rosamund Pike e Reese Witherspoon. Esses são os dez indicados ao prêmio de melhor ator e atriz ao 87th Academy Awards. Todos com ótimas atuações em seus respectivos filmes. Dois deles, um homem e uma mulher, serão premiados com uma estatueta do Oscar. Nenhum dos dez, porém, é negro. Esse fato levou o evento a ser criticado por racismo recentemente.

Mas 2015 não é nenhuma exceção. Em toda a história da cerimônia, apenas oito atores não eram brancos. Halle Berry, por exemplo, é a única mulher negra que já recebeu um Oscar. Cate Blanchett, Jennifer Lawrence, Meryl Streep e Natalie Portman foram as últimas a receberem a honra, todas caucasianas. Dentre os homens, Denzel Washington e Jamie Foxx são alguns dos negros que já venceram. No entanto, somando os afrodescendentes, hispânicos e outras etnias, chega-se a sete pessoas, o que é nada comparado aos outros 80 brancos ganhadores.

Para quem acredita que temos progredido nesse sentido, os dados apresentam que a mudança vem a passos de tartaruga. Em 1950, Jose Ferrer — hispânico — foi o ganhador pelo filme Cyrano de Bergerac. Posteriormente, apenas em 1963, Sidney Poitier — negro — se sagrou vencedor. Depois de Ben Kingsley e F. Murray Abraham também serem homenageados em 1982 e 1984, respectivamente, somente em 2001 um ator não branco, no caso Denzel Washington, voltaria a ser considerado o melhor ator. Forrest Whitaker foi o último negro a levar o Oscar para casa, em 2006. De lá para cá, Matthew McConaughey, Daniel Day-Lewis (duas vezes), Jean Dujardin, Colin Firth, Jeff Bridges e Sean Penn foram ganhadores.

No caso das mulheres, a comparação é ainda mais covarde. A supremacia é tão grande que nem vale a pena lembrar todas as outras brancas que venceram o prêmio. Apenas em 2001, Halle Berry, unanimidade em Hollywood, levou a estatueta por sua atuação como Leticia Musgrove em Monster’s Ball.

Outro sinal retrógrado está nos votos. A Academy of Motion Pictures Arts and Sciences mantém um corpo de cerca de seis mil jurados e o sistema funciona a base de indicação (alguém de dentro passa seu nome e ele é votado lá dentro para saber se você é aceito ou não). Com uma estrutura dessa e a origem no início do século XX, é de se esperar que haja uma continuidade de um sistema antiguado e elitista. Dito e feito. Segundo relatório produzido pelo LA Times em 2014, 93% dos votantes é branco, 76% é homem e a média de idade fica na casa dos 63 anos.

Além do racismo, vemos pela distribuição do corpo de jurados o tamanho do privilégio masculino. E o sexismo não para por aí. De acordo com o escritor e produtor Stephen Follows, os vencedores do Oscar de melhor ator podem esperar por um aumento de US$3,9 milhões em seu salário, enquanto as mulheres recebem acréscimo de apenas US$500 mil. Um outro estudo, divulgado na Forbes, afirma que os atores têm algo próximo a 81% de aumento nos salários após serem agraciados com a estatueta, enquanto as mulheres não vêem benefício financeiro no prêmio. A idade média de uma atriz premiada é de 36 anos e, segundo a reportagem, “a partir dos 40, as mulheres ou se aposentam ou ficam restritas ao papel de ‘a mãe’”.

A perpetuação de uma mesma equipe de jurados faz com que a premiação seja, de certa forma, previsível. Há até fórmulas de vencedores de Oscar. Uma pesquisa realizada pelo Bloomberg Business revela o “caminho de sucesso” para vencer o Academy Awards. Nela, estão incluídas etnia, altura, cor do cabelo, dos olhos, carreira etc. Além disso, o site ainda prevê a estrutura do filme ganhador: gênero, orçamento, duração, entre outros.

No domingo, o Dolby Theatre se torna o maior cenário de ostentação do fim de semana. A premiação se vê encoberta pelas cifras milionárias e do investimento de cerca de US$150 milhões que Hollywood faz anualmente para ficar com o prêmio. A maquiagem e o vestido das atrizes se tornam o foco das atenções de maneira brutal, sendo que as próprias artistas se vêem encurraladas e diminuídas em sua profissão, reduzidas a um mero modelo para um caríssimo vestido. Tudo isso ofusca a ausência de minorias (note que sequer falamos dos homossexuais, já que até ano passado nenhum ator ganhador na história se declarou gay. Apenas no começo de 2015, Joel Grey, ganhador do Oscar de ator coadjuvante em 1972 por sua atuação em Cabaret, saiu do armário). Percebemos o quão retrógrado o evento é. Oferece algumas horas de entretenimento e coroa ótimos filmes, justiça seja feita. Mas não se esforça em tomar uma posição a favor da luta das minorias — ou, ao menos, não demonstra. Continua propagando o mesmo discurso elitista presente em nossa época pela indústria cinematográfica.

Gabriel Hirabahasi

Gabriel Hirabahasi

Jornalista, unespiano e amante das piores piadas do mundo. Acredita que cada história mereça ser contada por inteiro (mesmo que isso demore um pouco). Também é músico, prolixo e esperançoso.

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