adoção

Mesmo com fila de pais, crianças não são adotadas

Era abril de 2014 quando Suzana de Cassia e José Cláudio Silva foram ao Fórum de Osasco. A visita anual para renovar formalmente o desejo de adotar uma criança é só mais umas das formalidades para quem entra no processo de adoção. Mas nessa ocasião, o casal foi sondado sobre a possibilidade de adotar irmãos. Isso não era problema. Pouco tempo depois era apresentado a eles três crianças – sim, trigêmeos que logo ganhariam uma nova família.

Do momento em que Suzana registrou o interesse pela adoção até a chegada das crianças foram cinco anos.

A história dessa família é uma exceção. Suzana e José aceitaram adotar trigêmeos, negros e com mais de dois anos de idade.

No Brasil, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, há 6.164 crianças aptas a serem adotadas e 34.123 adotantes que poderiam ser seus pais. Ou seja: para cada criança na fila de adoção existe cinco possíveis pais. A adoção só não acontece porque a maioria das crianças não se encaixa no perfil desejado – recém-nascidos de pele clara. Das mais de 6 mil crianças, apenas 7% são bebês (até um ano de idade) e 67,8% são negros ou pardos.

Crianças adoção

Imagem: Divulgação

Além disso, 24,49% dos futuros pais adotivos só aceitam crianças brancas. E 40% dos pretendentes aceitam crianças de todas as cores.

Por que esse perfil de crianças?

A psicóloga Maisa Elena Ribeiro explica que tal demanda expressa uma série de preconceitos ainda presentes na sociedade. “A maioria das famílias que busca a adoção procura por crianças pequenas e brancas. Muitas pessoas tem a ilusão de que adotando uma criança mais nova, o processo de criação e ensino será mais fácil, pois poderá ‘educá-la do seu jeito’”.

Maisa acredita que esses pais depositam no processo de adoção uma série de expectativas que as crianças devem atender para fazer sua família “feliz”, e colocam na criança uma responsabilidade que não é dela.

O perfil das crianças na fila de adoção pode ser explicado pela origem delas. A maioria vem de setores defasados na sociedade: uma série de violências e violações de direitos — acesso escasso à saúde e educação, fome — impossibilita a alguns pais oferecer os cuidados necessários aos seus filhos.

Maria Filomena Arruda dos Santos, advogada e membro do Conselho Fiscal do Grupo de Apoio a Adoção de Santa Bárbara d’ Oeste, ressalta que é nesse momento em que o Estado deve agir. “Quando a criança é abrigada, inicia-se um processo na Vara da Infância e Juventude para apurar os fatos, que pode demorar de seis meses a um ano. Esgotando todos os esforços para que a criança permaneça com sua família de origem, tem início o processo de destituição do Poder Familiar. Após esse processo, a criança estará disponível para adoção”, afirma.

O que é preciso para adotar uma criança?

Como o processo de adoção segue uma série de critérios, muitas pessoas desistem pelo caminho. Maisa Ribeiro avalia que, antes de poder adotar uma criança, as pessoas precisam passar por uma avaliação criteriosa, para verificar as reais condições emocionais de oferecer o cuidado adequado à criança. “É importante ressaltar que oferecer os cuidados necessários ao menor não depende só da questão financeira, mas também de afeto, disponibilidade para ser pai e mãe sem delegar essas funções para outras pessoas”, explica a psicóloga.

Para adotar, o primeiro passo é se dirigir a Vara da Infância para se cadastrar. A Vara agendará a data para conversar com o setor técnico. Após isso, a psicóloga do juizado agendará a entrevista para conhecer seu estilo de vida, renda financeira e estado emocional. A partir das informações no seu cadastro e do laudo final da psicóloga, o juiz dará seu parecer – isso pode demorar um mês, dependendo do juizado. Com a ficha aprovada, os futuros pais ganham o Certificado de Habilitação para Adotar, válido por dois anos em território nacional.

Mais informações no site.

Foto de capa: Agência de notícias do Acre/Creative Commons

Luana Rodriguez

Luana Rodriguez

Jornalista. Meio quieta, meio inquieta. Tropeçou na vida e quer saber aonde isso vai dar. Acredita em tudo. Principalmente no lado bom do mundo.

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