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Não abandone a faculdade: por que ainda há valor na educação superior

Há menos de um ano, Y Combinator ofereceu para mim e alguns colegas a oportunidade de abrir uma startup por meio de seu programa de apoio. Não era um requisito deixar a faculdade de vez. Eu somente teria que trancar um semestre. Mas eu me conheço. Eu não iria conseguir voltar ao ritmo de aulas após oito meses sem elas, independentemente do sucesso da minha companhia. Um período sabático seria um abandono definitivo da faculdade.

Discuti essa decisão com minha família, amigos e mentores. Eles se dividiram quanto ao veredito, então fui procurar ajuda online. Depois de ler inúmeros artigos, notei um padrão singular nos resultados: empreendedores milionários ou bilionários glorificavam as virtudes de passar os seus vinte e poucos anos fora de uma sala de aula. “Gênios não precisam de faculdade”, eu ouvi de novo e de novo.

Em oposição a esse discurso, tudo que encontrei incentivando a permanência na faculdade possuia um tom específico, um tom maternal:

Um diploma de ensino superior vai garantir maiores chances de conseguir o emprego dos sonhos. Isso é verdade para a maior parte das profissões, mas não era o suficiente para me manter motivado. A recompensa era muito etérea.

A maior parte das pessoas de sucesso fez faculdade. Essa afirmação me parecia conter uma relação causal duvidosa. E, além disso, cumprir as tarefas de um checklist pré-planejado não me faz feliz.

Um diploma dá segurança nas horas difíceis.  Esse argumento não me comove, pois eu não quero passar a maior parte da minha juventude construindo uma rede de segurança. Eu quero fazer algo que amo. Agora.

Eu sentia que não estava captando a história completa. Havia algo reconfortante em ouvir os conselhos dos outros, mesmo que fossem anedotas e razões para tomar essa ou aquela decisão: isso me fazia mais confiante em escolher um dos lados. Para um universitário com uma paixão por tecnologia e inovação, o que eu mais valorizava na educação superior? Eu tive enormes dificuldades em achar um artigo que respondesse a essa questão, especialmente algum que me entendesse de verdade. Este, então, é o artigo.

A academia e os autodidatas

A razão mais evidente e citada para permanecer na faculdade é que ela lhe ensina habilidades práticas e valiosas. Enquanto isso pode ser parcialmente verdadeiro, não é esse o ponto. Os melhores cursos não dizem o que aprender, mas como aprender.

Eu sempre ouvia o discurso de outros alunos que um diploma de humanas era inútil. Eles repisavam a ideia de que um diploma de exatas ou de nível técnico tinha muito mais valor que um de humanas ou não técnico, como se esse diploma fosse um sinal de mais inteligência.

Um diploma em [Letras/Sociologia/Filosofia/etc.] não lhe ensina habilidades práticas para o mercado de trabalho. Então por que não aprender algo prático?

Essa mentalidade é indiscutivelmente míope e anti-intelectual. Todo campo de estudo tem valor intelectual, você goste ou não. Acadêmicos aumentaram tanto a quantidade quanto a qualidade do conhecimento humano nas matérias que lhes interessam. Descobertas monumentais muitas vezes vieram de campos em que a aplicação prática não é imediatamente aparente. Essa é a beleza da academia.

Toda disciplina, pela sua própria natureza, tem um modo diferente de se aprender. Cada um o proporciona um novo modo de pensar e relacionar conceitos abstratos. Modelos alternativos de pensamento não são certos ou errados, eles são somente diferentes e, às vezes, incompatíveis. Essas ferramentas de análise que se ganha ao estudar um campo do conhecimento são muito mais úteis do que qualquer diploma.

O leitor deve estar pensando: “Oras, mas é possível expandir seu conhecimento de outras disciplinas fora da faculdade”. E você está certo! Você, de fato, pode.

Mas você não vai. Você não vai porque é difícil. Você não vai porque você não sabe por onde começar. Você não vai porque todo campo que não se relaciona aos seus interesses irá parecer entediante à primeira vista. Você não vai porque é difícil encontrar tempo para explorar assuntos não relacionados ao seu trabalho ou startup.

A universidade o força a sair da sua zona de conforto. Você pode não gostar de uma área do conhecimento, mas é importante que se estude coisas que não se gosta por um determinado tempo para desenvolver o pensamento crítico. Considere que muitas inovações começam com uma intersecção entre diferentes campos do conhecimento. De fato, a maior parte dos cursos que me foram valiosos e interessantes não estava relacionada com a ciência da computação.

Bons alunos ensinam a si mesmos. Vamos ser francos: eu raramente vou às aulas. Alguns iriam me chamar de um autodidata, mas eu não acredito em tal definição. Eu sempre estou aprendendo com alguém, seja ele um palestrante, o autor de um manual, ou os inúmeros colaboradores de um artigo da Wikipédia. Cada um desses é um meio diferente de aprendizado e cada um tem suas vantagens.

Seria desonesto da minha parte se eu não discutisse porque eu desprezo (e continuo a desprezar!) algumas matérias específicas: matérias ruins com programas ruins ministradas por professores ruins são uma perda de tempo. O oposto corre quando se tem um curso que o inspira a aprender mais em vez de sobrecarregá-lo com um monte de trabalho. Tente otimizar o seu tempo se matriculando para matérias instigantes, nas quais os professores irão tirá-lo de sua zona de conforto intelectual. Evite matérias ruins a todo custo.

A maior parte das lições importantes da faculdade não são aprendidas em livros. A universidade é um catalisador de experiências que o ensinam seus limites físicos, emocionais e mentais. A academia quando bem explorada oferece a melhor e mais variada forma de se aprender novas habilidades, tanto com seus colegas quanto com seus professores.

Você não é o próximo Mark Zuckerberg

…e está tudo bem!

A tecnologia tem um problema com o culto à personalidade. Parece que todo mundo acredita ser o próximo CEO do próximo empreendimento bilionário.

Além disso, muitos empreendedores que eu conheço vão além, tentam imitar as vidas e decisões daqueles que idolatram. Mas, se você está vivendo sua vida como uma sombra de outra, você vai perceber que isso é uma auto-derrota. Nunca haverá o “próximo Mark Zuckerberg”. É assim que as coisas funcionam.

Viva a sua vida. Não tente se tornar o “próximo” alguém – seja o próximo você. Eu aposto que suas próprias ambições são mais interessantes.

A cultura das startups é inimiga dessa mentalidade. Eu conheço alguns que esmiúçam fóruns como HackerNews/TechCrunch/ou aquele de sua preferência para encontrar os melhores passos ou guias de como transformar suas jovens empresas em um unicórnio. Se você não possui um bem elaborado plano de longo prazo, você já falhou.

Foda-se! Você não precisa de um “plano de vida”. Você provavelmente nem quer um. A universidade é um convite para se descobrir. Tire vantagem disso.

Por que a pressa?

O aluno tímido e sem tato social que abandonou a faculdade para se tornar um empreendedor parece ter se tornado um clichê na mídia moderna. Abandonar a faculdade para construir um negócio está na moda.

Alguns indivíduos brilhantes se aproveitaram dessa tendência para encorajar os melhores e mais inteligentes a terminar sua educação formal de forma prematura. O exemplo mais notável é o da Thiel Fellowship que seleciona um punhado de estudantes todo ano para abandonar seus cursos universitários por dois anos em troca de uma bolsa e estrutura que os ajuda a perseguir sua paixão (em geral, uma paixão empreendedora). Eu tenho vários amigos com bolsas da Thiel Fellowship que acreditam que o programa seleciona candidatos de alta qualidade e aplaudem a iniciativa por tornar mais aceitável abandonar a faculdade ou deixá-la para trás de uma vez.

Eu, contudo, não concorda com a tese fundamental desse programa. Esses programas de bolsa são no fundo a mesma coisa que o sistema de educação planejada das universidades, aos quais eles se opõem: eles dão um verniz de validação externa para a empreitada. Um prêmio – um diploma – não significa que você “venceu na vida”. O trabalho duro ainda precisa ser feito.

Eu tenho a impressão que a Thiel Fellowship está procurando estudantes que estão a beira de abandonar a faculdade e buscam por um último empurrão para tomar a decisão. Contudo, se esse empurrão vem de uma fonte externa, pode ser pelas razões erradas que se está tomando a decisão. Pergunte-se se você tomaria a mesma decisão se não recebesse o selo de aprovação de um terceiro. Se você ainda assim continua com seu propósito, então, de uma maneira quase que paradoxal, programas como a Thiel Fellowship podem não ser para você.

Eu falo por experiência e observação quando digo que, se você vai abrir uma empresa, você provavelmente pode fazer isso durante a faculdade. Se ela começar a crescer e as aulas estiverem no seu caminho, esse é o momento de tomar a decisão de abandonar a faculdade.

Não se coloque no mesmo saco que os demais. Há inúmeros outros projetos que você pode desenvolver enquanto estiver na faculdade. Nos meus primeiros três anos na UC Berkeley, eu desenvolvi um aplicativo na nossa incubadora júnior, promovi a maior hackathon até o momento e desenvolvi uma série de softwares de código aberto. Eu considero que tudo isso foi essencial para o meu crescimento profissional.

Não há nenhuma razão em esperar até a graduação para trabalhar nas coisas que se ama. Junte-se a seus amigos para projetos de classe. Construa algo – qualquer coisa –, mesmo que não seja um negócio. Promova um evento ou arrecadação de fundos para uma causa. Faça pesquisa com um professor. Use os recursos do seu campus a seu favor. Tudo o que importa é que você faça algo com o que você se importa.

Apesar disso tudo, a coisa mais importante que eu fiz na faculdade é intangível: encontrei uma comunidade de amigos que me desafia todo dia. Cercar-se com o grupo certo de pessoas é um elemento crucial para fazer da sua experiência universitária divertida e válida. Invista tempo nas suas relações pessoais. A vida fora desses círculos pode ser solitária. Quando você entra o mundo real, suas amizades são aquilo que você irá lembrar com afeto.

Cuide-se

A vida é curta. Sua juventude, um subconjunto, é mais curta ainda. Você mercê ter um pouco (mais) de diversão.

Há muitas atividades que você somente pode experimentar durante a faculdade. Eu acho que muitos que promovem os benefícios de abandonar a faculdade se esquecem de que são humanos. Nós não somos somente motivados pela percepção de recompensas a longo prazo. Aqui vai uma breve lista de coisas que eu garanto que você vai perder se decidir abandonar a faculdade:

  • Conhecer pessoas da sua idade com diferentes visões de mundo ou de diferentes origens étnicas, financeiras, geográficas e políticas.
  • Aproveitar o fato de ter mais tempo livre do que saber o que fazer com ele, deixando espaço para aventura (ou, simplesmente, jogar videogames comendo salgadinhos).
  • Juntar-se a um dos milhares de grupos de estudo ou começar o seu próprio.
  • Viver em uma república, ser eleito para o centro acadêmico, fazer parte da Atlética ou de um time ou, ainda, de qualquer outra entidade estudantil.
  • “Expandir sua mente” em um ambiente onde isso é socialmente aceitável.
  • Utilizar suas férias para conhecer uma miríade de locais de trabalho por meio de estágios, viajar o mundo ou passar um tempo valioso com amigos e família.
  • Assistir a performances, corais, teatros, jogos e outras atividades que tenham seus amigos ou colegas de classe como protagonistas.
  • Construir coisas incríveis e conhecer amigos para a vida toda em hackathons.
  • Usar moletom todos os dias.

No final das contas, a faculdade pode ser o período mais divertido da sua vida. Eu encontrei meus melhores amigos aqui na Califórnia. Minhas mais caras memórias vêm das experiências que eu tive aqui.

Eu não quero ir embora.

Quando eu não aceitei a proposta do Y Combinator para completar minha faculdade, a decisão surpreendeu muitos. Apesar disso, ninguém ficou mais surpreso do que eu. Eu passei minha vida toda procurando por uma oportunidade que me deixaria livre das aulas de uma vez por todas. E, quando essa oportunidade finalmente bateu a minha porta, eu a recusei – não por medo, mas por compreensão.

Eu tinha me acostumado a explicar minhas razões para ter permanecido na faculdade. Em geral, é a primeira coisa que os outros me perguntam quando descobrem que eu estive a beira de abandonar a faculdade. Mas, raramente, eles me perguntam como eu me sinto sobre a decisão. Eu diria que é uma pergunta muito mais importante. Bom, como eu me sinto, um pouco mais de meio ano depois?

Eu estou feliz na faculdade e não posso esperar pelo meu último ano.

Meus agradecimentos para Andrew Gold, Angel Say, Ari Feuer, Ashley Qian, Aviad Gamliel, Bryan Rahmanan, Courtney Basch, Dave Fontenot, Evadora de Zhengia, Greg Cohen, Hunter Rosenblume, Jeremy Fiance, Justin Brezhnev, Justin Ezor, Madi Kern, Nikhil Srinivasan, Rick Ling, Russell Kaplan, Russell Varriale, Sam Kirschner, Simone Anand, Steven Buccini, Tiffany Zhong e minha família por me influenciarem e lerem os rascunhos desse texto.

*Alex Kern é autor deste texto e colaborador da Revista Lampião. É engenheiro de software, empreendedor e estudante da UC Berkeley. Ajuda a administrar a @CalHacks, a @StartupBerkeley e a @KairosSociety. Esse artigo foi originalmente publicado em sua conta do Medium.

Traduzido por Rafael Barizan

[1] Nota do Tradutor: A realidade americana quanto ao valor do ensino superior é bem diversa da brasileira. No Brasil, a ideia de que um diploma universitário pode ser custoso demais ou um empecilho a tornar seus sonhos realidade é um alienígena. Vários fatores levam a essa diferença de mentalidade. No Brasil, a obtenção de um diploma de ensino superior é um fator determinante para a ascensão social. Diversas pesquisas apontam o enorme abismo existente entre o salário daqueles que possuem ensino superior e os que não. Além disso, não há uma cultura empreendedora desenvolvida nas universidades brasileiras ou na economia do país. Apesar dos altos índices de população empregada em seus próprios negócios, o conceito de startups de tecnologia ou de abandonar a faculdade para começar o próprio negócio ainda são um fenômeno extremamente recente. Tendo em mente essas diferenças, a compreensão do artigo será mais completa.

[2] N.T.: Não obstante a ressalva feita na nota acima, acredito que as ideias do texto são relevantes e de grande interesse para aqueles que se encontram na universidade, especialmente para aqueles passando por alguma crise quanto ao próprio curso ou com sãs escolhas de vida.

Foto de capa: Yale University/www.yale-paris.edu

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