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O amor pelo cinema se torna obsessão em “F.”, de Antônio Xerxenesky

“It is pretty, but is it art?”, pergunta Orson Welles em seu derradeiro filme completado F for Fake. Proponho a pergunta para o livro F., de Antônio Xerxenesky, e concluo, muito pessoalmente e sem nenhuma pretensão estética e/ou filosófica de saber de fato o que é arte, que, para mim, é arte.

O primeiro parágrafo do livro logo arrebata o leitor. A ousadia do autor de começar sua obra com uma caracterização, aparentemente tão simplista e bizarra, cria coesão para todo o parágrafo de forma inesperada e empatia imediata com o livro. O início é digno da imaginação de adolescentes que jogam muito videogame ou de filmes hollywoodianos ruins (“Olha o pleonasmo…”, resmunga Michel alguns capítulos à frente), mas é, na mesma página, arrancado violentamente da mediocridade com uma reviravolta narrativa e estilística de Xerxenesky.

Acompanhamos Ana, uma freelancer, por assim dizer, em um trabalho que se mostrará mais interessante e difícil que o normal. Além de enigmática, Ana vive em Los Angeles há alguns anos, porém não pelos mesmos motivos que a maior parte de seus conterrâneos que também ali se exilam naqueles idos do final dos anos 1970 e começo dos 1980. Em paralelo, conhecemos sua história pregressa à mudança para LA, a vida familiar no Brasil, o não relacionamento com os pais e a irmã, a vida de classe média no Rio de Janeiro, suas diversões preferidas (cinema e música) e sua diversão para acalmar a insônia: a leitura.

No trabalho em que a acompanharemos, seu amor pelo cinema torna-se uma obsessão. Ana, dia após dia, torna-se uma cinéfila. Frequenta cinemas obscuros à procura de edições e cortes raros de seus filmes prediletos e anota suas impressões em um caderninho que carrega. Antoine, um amigo e companheiro para o sexo casual, a ajuda nessa empreitada introduzindo-a ao cinema francês. Essa obsessão, apesar de parte essencial desse trabalho, iniciará a sucessão de conflitos, tramas, cenas, cortes, planos e montagens que culminarão no clímax orwelliano da obra.

Rafael Barizan

Rafael Barizan

Graduando em direito, leitor voraz e rabugento e um existencialista em construção de alma barroca.

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