Foto: Arquivo/Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre

O caminho da arte de rua e a arte de rua enquanto caminho

Andar pelas ruas de Pelotas, no Rio Grande do Sul, é respirar arte. E não estamos muito acostumados com isso. Vivemos nosso dia a dia na correria, sem prestar muita atenção no grafite do muro ou no artista com o chapéu no chão da praça. Infelizmente. Mas em uma cidade com mais de 13 mil alunos (de todo o país) de cursos como Artes Visuais, Cinema e Animação, Design, Museologia, Música, Conservação e Restauro, entre outros, as coisas são diferentes. Todo mundo se juntou: estudantes da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), moradores, prefeitura e outras instituições. O resultado é nítido: existe uma vida cultural impressionante nas ruas. E a explicação é fácil: “uma atividade inspira a outra”, diz Ana Pessoa, integrante do projeto Sofá na Rua de Pelotas.

A arte de rua é antiga e não tem uma origem certa. Sabe-se que lá na Grécia Antiga já existiam artistas que passavam pelas ruas discursando e cantando. Mas a arte como ocupação urbana, respeitada e regulamentada por lei, é recente. De qualquer forma, o viés crítico e de transformação social segue vivo – e talvez mais do que nunca.

Uma cidade histórica-contemporânea

Pelotas, como já citei, foi uma cidade que se transformou com a ocupação artística das ruas. O professor do departamento de Museologia e Conservação e Restauro da UFPel, Roberto Heiden, diz que Pelotas tem um “contraste entre o patrimônio cultural e as recorrentes manifestações artísticas contemporâneas, ou seja, os mosaicos, grafites, vitrais, performances, esculturas, estêncis, etc”. Basicamente, uma cidade histórica, com grandes prédios antigos, e ao mesmo tempo contemporânea, pelas intervenções artísticas. Justamente por reparar esse contraste um tanto quanto curioso, Roberto criou a página “Pelotas Arte Urbana” para documentar as diversas intervenções artísticas. O objetivo é “contribuir com a visibilidade da arte urbana e promover o debate sobre os diferentes tipos de arte que existem nas ruas da cidade”.

E se as intervenções artísticas são tantas e constantes, nada melhor do que um bom exemplo para comprovar: o Sofá na Rua. O próprio nome já diz tudo, basta colocar o sofá de casa na calçada, literalmente na rua, e interagir nesse espaço urbano que é público e pode (se não deve) ser ocupado.

O projeto nasceu sem querer no final de 2012. Na época, a Casa Fora do Eixo de Pelotas estava realizando um evento cultural e no último dia tiveram um problema de alvará. Tudo já estava pronto: os artistas e o público. Só faltava o lugar. “E aí, como nossa casa não comportava um evento desses, levamos tudo para a rua da frente. Desde então, mensalmente, colocamos o sofá da nossa casa na rua, chamamos duas bandas para se apresentarem, abrimos para quem quiser expor seus materiais em uma feira de trocas e chamamos artistas para fazerem outros tipos de intervenções. Hoje, cerca de duas mil pessoas circulam por aqui”, conta Ana Pessoa.

A regulamentação da arte de rua em São Paulo e a valorização da cultura brasileira

Mas é claro que esse tipo de intervenção acontece em diversas partes do Brasil e do mundo. Digamos que é uma tendência mundial de se ocupar espaços públicos urbanos com arte. Afinal, se é público, é nosso. E se é nosso, temos direito. Na cidade de São Paulo, desde junho de 2011, existe um decreto municipal que assegura a liberdade de expressão artística nos espaços públicos da cidade. Está garantido apresentar-se em ruas, praças e parques sem a necessidade de licença ou autorização, contanto que se permita a circulação de pedestres e veículos; passar o chapéu sem ser “comércio ilegal” e utilizar equipamentos eletrônicos, desde que sejam respeitados os limites de ruídos.

Aloysio Letra faz parte da direção da Companhia de Artes do Baque Bolado da cidade de São Paulo. A Companhia existe desde 1996 e surgiu dos encontros de artistas pesquisadores do maracatu de baque virado, manifestação cultural oriunda de Recife (PE) e também de fonte africana.

Por meio de espetáculos musicais, intervenções, cortejos e peças teatrais, os integrantes misturam a cultura popular tradicional e outras linguagens artísticas, como circo, arte de rua, dança contemporânea, entre outros. E assim eles fazem das ruas um espaço de intervenção e valorização da própria cultura brasileira.

“Atualmente trabalhamos com um foco maior no projeto Batuque a Cidade, que tem por objetivo conhecer e gerar intervenções em espaços que são referência para a história da cultura negra em São Paulo, subúrbios, periferias ou espaços culturais de resistência, a fim de dar visibilidade à cultura afro-brasileira, à dança, ao canto e à arte de rua em geral”, explica Aloysio.

A arte de rua está, em certa medida, vinculada com um ativismo social. “Para nós, muito da valorização e do sucesso em promover uma real igualdade racial é para reconhecer nossa própria cultura e, em vez de negá-la, usá-la para nos expressarmos em prol do nosso coletivo e de outros. Na cultura popular se aprende muitas vezes por meio da oralidade e também do escambo, formas de aprendizado que praticamos e incentivamos dentro e fora do Baque Bolado”, diz Aloysio. Afinal de contas, as ruas estão aí para serem palco de escambo mesmo. “Nosso trabalho, junto do trabalho de outros tantos coletivos, visa afirmar uma cultura negra que se faz viva, que já foi e ainda é alvo de muitos preconceitos”.

Arte de rua: mudança e reinvento

Bauru, no interior de São Paulo, tem um movimento hip-hop muito bem consolidado e o grafite está sempre presente nas ruas por aí. Sérgio Oliveira, mais do que um grafiteiro, é um artista. “Existe diferença entre um grafiteiro e um artista do grafite. O artista vive da sua arte. Ele não só grafita, mas também dá oficinas de grafite, aulas. O artista tem um certo ativismo social”. Hoje, Sérgio é instrutor na pinacoteca Casa Ponce Paz. Ele afirma que a diferença da arte de rua para outras artes é justamente a troca de experiências e ideias que ela proporciona. A arte nas ruas é importante porque ajuda os moradores a saírem daquela rotina maçante. “Se a pessoa está andando pela rua, passa pela praça e escuta alguém cantando aquela música do Zezé de Camargo e Luciano que era da época em que ele conheceu a esposa, seu humor já muda, tudo muda!”.

A partir do grafite podemos perceber como a arte de rua vem mudando e se reinventando com o tempo sem perder completamente sua essência e seus objetivos. Originalmente marginalizado, o grafite surgia na calada da noite, carregado de adrenalina, uma vez que a qualquer momento um policial podia surgir e o grafiteiro ser preso (algo que ainda pode acontecer, claro, mas talvez em menor proporção). Entretanto, a arte cresceu tanto e ganhou tanto respeito que já são comuns casos em que pessoas, empresas ou mesmo órgãos públicos, como prefeituras, contratem grafiteiros (ou artistas do grafite) para pintar muros e portões. Afinal, é ou não é uma forma de colorir a vida?

Espaços públicos, Estado e sociedade

Será que o Estado, como órgão público, deve incentivar esse tipo de iniciativa? O professor Roberto faz um questionamento. “O grafite já perdeu parte de sua especificidade, que era a marginalidade. Se ele for apoiado pelo Estado, não passa a ser tão arte contemporânea ou acadêmica como a arte da Bienal ou do museu?”. E de novo voltamos ao fato de a arte de rua estar se renovando e se reinventando a cada dia. “Mas não penso que isso seja ruim, pelo contrário!”, completa.

O incentivo das diversas áreas da sociedade é fundamental. A arte nas ruas acontece em espaços públicos, então se torna evidente que deve haver apoio do Estado (e também de iniciativas privadas). Isso porque a arte de rua é o mais democrático que uma arte pode ser: ninguém paga para ver um grafite no muro ou um cara tocando sanfona na entrada do metrô – a não ser que queira dar uma gorjeta.

Alexandre Vargas, coordenador geral do Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre vai além nessa discussão. “Espaços públicos deteriorados são lugares de solidão, conflito e criminalidade. Espaços públicos cuidados são de interação, amizade e desfrute, fundamentos de uma democracia cidadã. É evidente que existe conexão entre espaço público e a democracia. E espaço público e regimes totalitários. O espaço público tornou-se uma agenda prioritária para as cidades em anos recentes”, ele diz.

O Festival já está em sua 6ª edição e o nome também é autoexplicativo: as apresentações de teatro se dão nas ruas de Porto Alegre. O evento é dividido em cinco eixos: apresentações de teatro de rua, intervenções urbanas e performances, formação (com cursos, oficinas, workshops), reflexão (com seminários, conferências, palestras) e ações especiais (com rodadas de negócios e homenagens). É realizado no mês de abril e ocupa 30 bairros da cidade, com todas as atividades gratuitas. O público atingido gira em torno de 135.000 pessoas. Isto é, um festival de grande porte.
Mas Alexandre também faz a crítica de que ainda existem poucas políticas públicas com o intuito de democratizar o acesso ao teatro e às artes de rua em geral: “tanto o Estado do Rio Grande do Sul como o município de Porto Alegre não possuem políticas para esse tipo de arte. Ou seja, os governos são primitivos nesse aspecto”.

A arte de rua enquanto caminho

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, existe o Projeto Vira Lata, um coletivo artístico. Rafael Bertolacini, integrante, diz que “atualmente, projetos como esse têm um potencial educacional muito forte nas cidades. São importantes para a desvinculação de jovens com o tráfico e crimes em geral”. Isso porque quase sempre “dentro das escolas formais não se valoriza o desenvolvimento artístico, então projetos assim vêm para inspirar”.

A arte de rua pode, então, ser um caminho de mudança. Tanto para quem faz, quanto para quem recebe. Essa troca entre artista e público é múltipla e infinita. Afinal, as ruas de uma cidade são reflexo dos costumes e ideais da população daquele local. E o contrário também é verdadeiro: a população é reflexo do que se dá nas ruas. A arte de rua, como meio e fim, vem pra inspirar, refletir, embelezar e até mesmo criticar a sociedade. A arte de rua é, enfim, uma forma de dar voz ao povo. Pois, como enfatizou Sérgio Oliveira durante nossa conversa em uma tarde chuvosa de Bauru, “parede branca, povo mudo”.

Foto de capa: Arquivo/Festival Internacional de Teatro de Rua de Porto Alegre

Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues

Jornalista em (trans)formação, apaixonada por escrever, fotografar e curtir um som. Acredita que a beleza está nos detalhes e que a vida faz mais sentido durante uma boa viagem.

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