Alize Cornet of France hits a return to Hsieh Su-Wei of Taiwan in their women's singles tennis match at the Wimbledon Tennis Championships, in London June 26, 2013.      REUTERS/Eddie Keogh (BRITAIN  - Tags: SPORT TENNIS)

O machismo em Wimbledon e a desigualdade de gênero no tênis

Dentro de quadra, o Torneio de Wimbledon – disputa mais antiga e tradicional do tênis – apresentou resultados não muito surpreendentes, com vitórias dos líderes dos Rankings da ATP e da WTA: o sérvio Novak Djokovic conquistou seu terceiro título em cinco anos e a americana Serena Williams confirmou seu favoritismo ao levar para casa seu sexto troféu do Grand Slam londrino. Fora das linhas, a edição de 2015 ficou marcada pelos desabafos e questionamentos feitos por alguns dos principais nomes do tênis feminino na atualidade acerca do machismo que se revelou em diversas situações em meio ao evento.

A dinamarquesa Caroline Wozniacki foi a primeira a se manifestar sobre o sexismo na competição. Para a ex-número 1 do mundo, é absurda a diferença entre gêneros feita pela organização ao estabelecer quais partidas serão disputadas na Quadra Central, a principal do complexo de All England Club. “Você treina duro para jogar nas grandes quadras e as mulheres não vêm tendo muitas oportunidades de jogarem lá”, expôs Wozniacki, amparada pelos números que mostram um claro favorecimento às partidas dos homens na quadra mais importante: foram quatro a mais na edição de 2015. Serena Williams também endossou a reclamação da colega e enfatizou que a luta das tenistas mulheres por mais espaço nas principais quadras está gerando progresso, mas ainda há mais a se fazer.

Serena Williams (R) of the US and Caroline Wozniacki of Denmark hold their awards their US Open 2014 women's singles finals match at the USTA Billie Jean King National Center September 7, 2014  in New York. AFP PHOTO/Stan HondaSTAN HONDA/AFP/Getty Images ORG XMIT: 507846285 ORIG FILE ID: 533138143

Wozniacki e Williams: número 4 e 1 do mundo levantaram a voz contra o machismo (Foto: Getty Images)

A bielorussa Victoria Azarenka, por sua vez, expôs sua insatisfação a respeito das críticas – na maioria das vezes vindas da imprensa – sobre os gritos e ruídos que elas e outras tenistas soltam durante as partidas. Ela se disse bastante irritada com o fato de tenistas homens como Rafael Nadal gritarem igual ou mais alto em seus jogos e não serem ridicularizados por isso.

Repercutidas as declarações, alguns argumentos acabam surgindo em contraposição. No caso da quadra principal, afirma-se que o momento técnico do tênis masculino é mais atrativo que o do feminino, contando com maior nivelamento entre atletas de nível técnico mais alto, o que acabaria gerando maior interesse do público. Contudo, a diferença histórica de tratamento estabelecida entre o tênis masculino e o feminino é grande demais para que a discussão seja limitada a isso.

Não é preciso vasculhar muito para encontrar uma série de casos de machismo no esporte – e perceber que vários deles provêm da própria cobertura midiática. Em 2013, Wimbledon já havia sido cenário de outra polêmica quando, durante a transmissão da final feminina, o apresentador John Inverdale, da BBC, teceu uma série de comentários a respeito da aparência da francesa Marion Bartoli, a campeã daquela edição. Em um deles, disse: “Será que, quando Bartoli era criança, seu pai lhe disse: ‘Você nunca vai ser admirada, você nunca vai ser uma Sharapova, por isso você tem que ser briguenta e durona’?”. Dias depois, a BBC emitiu nota desculpando-se pelas declarações de Inverdale.

Na mesma edição do Grand Slam, chamou a atenção o destaque midiático dado às namoradas dos atletas durante o evento, quase sempre tratadas de maneira objetificada e exibidas como uma espécie de “troféus” dos mesmos. Tamanho constrangimento levou a colunista Hadley Freeman, do The Guardian, a publicar um texto no qual critica duramente a exposição desnecessária dada às garotas, com longos takes em meio às partidas ao vivo e comentários a respeito de suas vidas pessoais. No caso das tenistas, pouco ou quase nada se fala sobre seus namorados. É bem mais usual que seus atributos físicos sejam discutidos, muitas vezes ofuscando o que realmente deveria ser abordado: suas qualidades enquanto atletas.

Maria Sharapova: número 2 do mundo é alvo de comentários sobre sua aparência desde o início da carreira (Foto: Getty Images)

Número 2 do mundo, Maria Sharapova é alvo de comentários sobre sua aparência desde o início da carreira (Foto: Getty Images)

Existem casos também envolvendo os próprios atletas. Durante a disputa de Wimbledon em 2012, o tenista francês Gilles Simon criticou abertamente a premiação igualitária oferecida pelos Grand Slams a homens e mulheres. Para ele, os homens necessitam de mais esforço para vencer suas partidas e isso as torna mais atraentes para o público. Na ocasião, a tenista russa Maria Sharapova se mostrou indignada e respondeu em tom forte, afirmando que as mulheres haviam lutado muito pela igualdade no esporte e que estava certa de que a maioria das pessoas preferiria vê-la jogar ao invés do francês.

Outros tantos exemplos de machismo no esporte não faltam e, obviamente, não estão restritos ao tênis. É provável que, pelo fato de se tratar de um esporte em que as principais competições masculinas e femininas acontecem sempre em conjunto e recebem grande destaque da grande mídia internacional, as diferenças se tornem ainda mais explícitas.

Os casos isolados em Wimbledon são sintomáticos e revelam que as mulheres ainda têm um longo caminho a trilhar dentro do esporte. O bom sinal é que as tenistas tops do mundo vêm demonstrando consciência em suas declarações. Tudo faz crer que elas estão dispostas a dar passos à frente na luta pela igualdade.

Estevão Rinaldi

Estevão Rinaldi

Jornalista formado pela Unesp/Bauru. Interiorano tentando a sorte na capital. Ainda descobrindo o que espera (fazer) da vida. Quanto mais o tempo passa, menos descarta possibilidades. Ama futebol, música, papo existencial de bar, tempo frio e madrugada.

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