Crise do time bugrino revela a situação do futebol nacional

O que o Guarani tem a ver com o 7×1?

Se você tem menos de 30 anos, certamente não pôde acompanhar de perto as épocas de glória do Guarani. Campeão Brasileiro de 1978, o Bugre era um dos clubes mais tradicionais do país. Entre as décadas de 70 e 80, craques como Zenon, Careca, Neto e Evair desfilaram talento no lendário Estádio Brinco de Ouro da Princesa.

Guarani torcedorPorém, os anos 90 marcaram a derrocada do time de Campinas. Após uma sequência de péssimas gestões, o clube foi acumulando dívidas, que hoje beiram a casa dos R$200 milhões.  Para agravar a situação, essa quantia provém de dívidas trabalhistas: o Guarani tem 374 ações na Justiça do Trabalho para resolver e já não pode mais postergar.

Com o objetivo de sanar as dívidas, o clube chegou a colocar o seu estádio em leilão, onde foi arrematado por 105 milhões, valor bem abaixo do que a diretoria bugrina esperava. Nesta semana, porém, o leilão foi cancelado e o Guarani tenta entrar em um acordo com o grupo Magnum, para que a empresa compre o estádio e ajude a reerguer o clube.

A história por si só já é trágica, mas ainda fica pior: a situação do Guarani só reflete a realidade do futebol nacional. A maioria dos clubes brasileiros está endividada, muitos times do interior foram obrigados a fechar as portas e outros tantos vivem situação de crise extrema, como o próprio Guarani.  Nem as grandes equipes escapam desse panorama. Se somarmos as dívidas dos 20 clubes que disputaram a série A em 2014, passaremos os R$6 bilhões. A diferença é que estes ainda têm as cotas de TV e a influência política de cartolas, o que lhes garante sobrevivência e adiamento das dívidas.

Pode parecer exagerado, mas isso ajuda explicar o vexame do Brasil na Copa do Mundo de 2014. É óbvio que a crise dos clubes brasileiros não é o único fator responsável pelo 7×1, mas podemos sim colocar alguns gols da Alemanha na conta da má administração dos nossos times e das nossas ligas.

BELO HORIZONTE, BRAZIL - JULY 08: Philipp Lahm of Germany consoles Oscar of Brazil after Germany's 7-1 win during the 2014 FIFA World Cup Brazil Semi Final match between Brazil and Germany at Estadio Mineirao on July 8, 2014 in Belo Horizonte, Brazil.  (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)O que ocorre, em primeiro lugar, é a má formação dos nossos jogadores. É verdade que eles saem cada vez mais rápido para o exterior – o que é outro problema do futebol nacional – mas o desenvolvimento na base e a transição para o profissional geralmente ocorrem no Brasil. Porém, os dirigentes pouco se importam com esse processo.

Isso porque os cartolas tratam os clubes como algo pessoal. Nos dias de hoje, comandar um time de futebol envolve muito mais política do que negócios. No mundo dos dirigentes, vale muito mais a pena acumular dívidas para montar um time cheio de medalhões e que brigue pelo título da temporada, do que gastar só o que há em caixa, olhar para a base e se preocupar com o futuro e com a saúde financeira da equipe. Afinal, o próximo presidente que se vire com as dívidas, não é mesmo?

Mas tudo isso só acontece porque esse sistema é legitimado em nosso país. Somos um dos únicos lugares do mundo onde os clubes não são tratados como empresas. Por aqui, os times têm carta branca para gastar quanto quiser, sem sofrer grandes sanções pelas dívidas milionárias. A fins de comparação, há menos de um mês, o Parma, equipe italiana afundada em dívidas, foi obrigado a decretar falência e caiu imediatamente para a quarta divisão do campeonato nacional.

Vale lembrar, no entanto, que os clubes do interior e de menor expressão têm um motivo a mais para acumular dívidas. A CBF só está preocupada com a Seleção e com a elite do futebol nacional. O calendário brasileiro exclui grande parte dos clubes brasileiros, sendo que 85% dos times profissionais ficam inativos por mais de seis meses. É óbvio que isso não justifica o acúmulo de dívidas milionárias, mas temos que admitir que não é fácil encontrar um modelo de negócios lucrativo nesse sistema.

Temos então um tripé extremamente problemático: cartolas que comandam os times com interesses políticos e acumulam dívidas, falta de leis que impeçam que os clubes gastem mais do que podem e uma federação que se enriquece às custas dos clubes, procura estar em paz com os grandes times e não se preocupa com o futuro do futebol nacional.

Mudando um desses pilares, talvez seja possível consertar os outros. O que está mais próximo são as leis: a MP671 está tramitando no Congresso. O projeto trata da criação do Programa de Modernização e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro, que procura regulamentar o fair play financeiro, ou seja, obrigar os clubes a gastarem somente aquilo que arrecadarem.

Felizmente, há uma luz no fim do túnel. Além da expectativa da aprovação da MP do Futebol, alguns dirigentes aparentam estar mais conscientes de que precisam de seriedade para gerenciar seus times. Neste ano, as equipes parecem fazer menos loucuras e constantemente assistimos presidentes demonstrando preocupação com a saúde financeira de seus clubes. Falta ainda todos eles se unirem para que tenham mais poder perante a CBF.

Mesmo assim, isso ainda é muito pouco para empatarmos o jogo. O futebol brasileiro ainda perde de goleada, não só para Alemanha, mas para gente daqui de dentro. A esperança é que ainda temos tempo para virar essa partida.

 

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