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Para onde vai o brasileiro que resolve fazer intercâmbio?

São várias as motivações que nos levam a querer fazer intercâmbio. Pode ser a curiosidade de conhecer outra cultura, a necessidade de se aprender uma língua, a simples vontade de viajar e por aí vai. Acontece que temos uma identidade, como pessoa e como brasileiros, que rege nossas escolhas, inclusive quando decidimos ir para fora do país. Por exemplo: no Brasil somos constantemente bombardeados pela cultura norte-americana, o que faz com que tenhamos uma relação de identidade com os Estados Unidos. Muito provavelmente por causa dessa relação, os EUA são um dos destinos mais escolhidos pelos brasileiros para intercâmbio.

Maeni Ferreira, consultora da agência CI, diz que “Canadá, Estados Unidos, Austrália e Reino Unido são os países mais procurados para intercâmbio”. O que não é de se estranhar se pensarmos que estes são considerados países exemplares no quesito desenvolvimento, isto é, países de primeiro mundo. Além disso, soma-se o fato de o idioma ser inglês e de a maioria dos brasileiros que busca esse tipo de intercâmbio ter o objetivo de estudar a língua (cerca de 90%, segundo dados da CI).

Quando não é para estudar, o objetivo do intercâmbio pode ser trabalhar. E o estilo de países mais procurados (desenvolvidos com idioma inglês) permanece o mesmo. “O problema é que é difícil conseguir visto de trabalho para a maioria dos países. Irlanda e Austrália facilitam esse processo e por isso, certamente, são os principais destinos para quem quer trabalhar e ainda aprender o inglês”, completa Maeni.

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Dados: Agência CI / Arte: Camila Pasin

Lucas Hakime Dutra, 27 anos, estudante de agronomia da UFLA (Universidade Federal de Lavras) optou pelo programa Work and Travel e foi para os EUA. Ele ficou pouco mais de três meses trabalhado como salva vidas no parque aquático de um resort. Além disso, para ganhar um dinheiro extra, também trabalhou em outros locais do resort, como no restaurante, lavando louça. A ideia era também aprender o inglês.

Lucas diz se identificar com a cultura norte-americana, uma vez que os EUA são um país “extremamente desenvolvido e influenciam bastante a economia brasileira”. Graças à essa influência, por exemplo, não sofreu com a alimentação em sua estadia por lá, já que considera ser semelhante à brasileira. “Um dos grandes problemas que se tem em um intercâmbio, a alimentação, eu não tive”, ressalta.

Globalização e identidade: proximidade e distância

Ulisses Pinheiro Lampazzi, professor de história, destaca o papel da globalização neste cenário e sua relação com a questão da identidade, tanto individual quanto coletiva (dos brasileiros como nação). Para Ulisses, a globalização tem certos efeitos colaterais para países que não estão no centro do poder. “Cria-se padrões culturais, estéticos, consumistas e o mundo todo é bombardeado por eles, não importando as diferentes configurações culturais de cada região”, afirma.

Isto é, podemos considerar que existe uma cultura hegemônica, liderada principalmente pelos EUA, que se insere cada vez mais (por meio da globalização) em diversos países do mundo todo. Na América Latina não é diferente. O resultado disso é o sentimento de inferioridade que países não desenvolvidos como o Brasil têm, justamente por enxergarem nos países desenvolvidos um modelo ideal de cultura, de costumes e de vida.

Nós, portanto, regamos nossa identidade com esses padrões externos e tudo isso influencia na hora de se escolher um país de destino. Ulisses ainda ressalta que a busca por países da Europa, da América do Norte ou da Oceania “é natural de um povo que não se conhece”, ou seja, que tem dificuldade em estabelecer uma identidade própria. Afinal, não deveríamos estar mais próximos, por exemplo, de países da América Latina? Nossos vizinhos sofreram a mesma história de colonização, exploração etc e isso deveria ser um motivo identitário. Mas não é. O brasileiro, em muitos casos, fala da América Latina como se fosse outro continente, distante e completamente diferente.

Intercâmbio e universidades públicas: internacionalização e possibilidade de bolsas

A verdade é que esse tipo de intercâmbio por agência, seja para estudar outra língua ou trabalhar, costuma sair caro e por isso não é uma opção para muitos brasileiros. Nos últimos anos, o intercâmbio de convênio com universidades estrangeiras tem sido estimulado no país, principalmente nas universidades públicas, onde os estudantes e profissionais (professores e funcionários) encontram o auxílio de bolsas. O programa mais conhecido é o Ciências Sem Fronteiras, mas existem outros que estão consolidados e promovem essa internacionalização.

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Dados: Agência CI / Arte: Camila Pasin

A Unesp tem se preocupado bastante com essas questões nos últimos anos. A universidade tem convênio com instituições do mundo inteiro e oferece bolsa em alguns programas, como o AUGM (Associação de Universidades Grupo Montevidéu), para o Chile, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.

Nessa configuração, a escolha dos países de destino muda um pouco. O estudante ou profissional que opta por viajar com o auxílio de uma bolsa está limitado aos programas oferecidos. De acordo com Rodrigo Botton, assistente administrativo do Escritório Regional de Apoio à Pesquisa e à internacionalização (ERAPI) da Unesp, os países que mais recebem unespianos são Argentina, Chile e México (da América Latina) e Portugal e Espanha (da Europa). E mais: há um processo seletivo concorrido, o que faz com que o leque de opções diminua.

Rodrigo diz que a Unesp é nova no cenário internacional e, por isso, ainda há poucos convênios com países da América do Norte ou outros da Europa. Além disso, a maioria dos programas existentes não tem bolsa. Em relação a países da África ou da Ásia, os convênios são praticamente inexistentes.

Edvaldo Scoton, 49 anos, é assistente de suporte acadêmico da Unesp em Bauru e recentemente fez um intercâmbio de um mês por meio do programa Erasmus Mundus. O programa de mobilidade de funcionários técnicos oferece bolsas para Portugal, Espanha e Itália. Edvaldo conta que pela questão da língua colocou Portugal como primeira opção, Espanha como segunda e Itália como terceira. Participou do processo seletivo com mais de 200 inscritos e foi aprovado em Turim, Itália.

Edvaldo conta que no fundo queria mesmo era ir pra Itália, porque é descendente de italiano e tem uma ligação com a cultura (apesar de não falar italiano). De qualquer maneira, a língua não foi um problema e ele conseguiu se comunicar tranquilamente. Durante o tempo em que esteve lá, acompanhou as atividades do Instituto Politécnico de Turim relativas a internacionalização da universidade. Além disso, como estudou questões ambientais durante seu mestrado, optou por analisar também a estrutura do Instituto com a coleta de recicláveis.

Ele conta que não sofreu um choque cultural, já que “com a globalização, as culturas estão se tornando parecidas”. As maiores dificuldades foram com o clima, bastante frio, e com a comida.

A UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) é outra universidade que investe nos convênios internacionais e também participa do programa AUGM. Maíra Nascimento, 22 anos, é estudante de História e esteve por um semestre na Universidade de Santiago do Chile. A escolha do programa se deu pela bolsa e por seu interesse em temas latino-americanos. Dentre as opções, preferiu Chile, pois queria estudar uma revista da década de 1970 que foi interrompida com o golpe militar. “Uni meu interesse próprio com meus interesses acadêmicos”, explica.

Maíra acredita que em países do norte não seria tão bem acolhida. “Especialmente pelo fato de que Brasil e Chile, assim como outros países da América Latina, compartilham experiências históricas e culturais que, de algum modo, aproximam o modo de ver as coisas, de viver etc. de seus povos”, diz.

A estudante reflete sobre a questão da identidade e da globalização. “Acredito que há, sobretudo, uma pretensão de ‘superioridade’, que vem da preponderância histórica dos ‘países do norte’ sobre os ‘países do sul’, e uma grande e triste falta de conhecimento”, afirma. Isso leva os brasileiros a preferirem, de certa maneira, países “superiores”, ou seja, desenvolvidos, como já foi dito. Além disso, “houve, por um longo período da história do Brasil, a noção de que o Brasil era também ‘superior’ dentro da América Latina”, conclui.

O voluntariado: nadando contra a corrente

O intercâmbio voluntário quebra todas essas regras. Geralmente, quem opta por fazer algum trabalho voluntário escolhe locais que realmente precisam de ajuda, ou seja, países mais pobres. É o caso da jornalista Aline Camargo, 24 anos, que passou cinco semanas em Moçambique pela AIESEC, organização que intermedia intercâmbios sociais em mais de 100 países.

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Aline com as crianças da escola na qual ajudou a construir uma biblioteca (Foto: Acervo Pessoal/Aline)

Aline trabalhou em uma ONG que cuida de mulheres e crianças vítimas de violência e HIV positivas. Também captou recursos e livros para a construção de uma biblioteca em uma escola primária. No fim, conseguiu 2.350 reais e 400 livros. O resultado foi ótimo, mas o processo não foi fácil.

O choque com as condições de vida de lá foi grande e Aline também sofreu situações que nunca tinha imaginado. “Lá, encontrei crianças que nunca tinham visto uma mulher loira na vida, então experimentar o preconceito na pele também foi muito diferente. Eu nunca tinha me sentido estranha por ser branca”, conta. As dificuldades do dia-a-dia também pesaram bastante. “Não estou dizendo que quem vai a Paris não tem dificuldades, que seja a língua, ou o clima… mas estar em um ambiente tão diferente (e muitas vezes hostil) como Moçambique me fez crescer muito”.

Mas, de certa forma, tudo isso faz parte quando se escolhe ser um voluntário. A jornalista diz que, em trabalhos assim, “a pessoa mais beneficiada é o próprio voluntário”, pois é sempre “um aprendizado muito grande e uma experiência marcante”, mesmo que você não consiga mudar de fato a vida daquelas pessoas. “O que fazemos é bem pequeno, mas nem por isso deixa de ser importante”.

Aline também destaca a questão do sentimento de inferioridade do brasileiro. “Não acho que seja só uma questão de identidade [a escolha do país de destino], acho que por muitos anos nós brasileiros tínhamos uma ideia de inferioridade em relação a outros países e culturas e pensávamos o mesmo de nossos vizinhos. Mas eu gosto de pensar que isso está mudando!”.

Tornando-nos brasileiros 

O professor Ulisses Pinheiro Lampazzi destacou, por fim, a transformação na visão do que é o turismo. Segundo ele, no século XIX, os europeus viajavam em busca do diferente como forma de status e coragem. No Brasil, mandávamos os jovens ricos para o chamado “banho de civilização” na Europa. Agora, no século XXI, importamos um modelo de turismo “catálogo”, no qual o importante é “fazer muitos lugares em poucos dias tirando o maior número possível de fotos em lugares famosos”. Por isso, não cabe, por exemplo, uma viagem à África. “Fotografar fome ou uma realidade parecida à nossa não dá likes, não é mesmo? Parodiando Simone de Beauvoir: não nascemos brasileiros, nos tornamos brasileiros”, finaliza.

Arte de Capa: Camila Pasin

Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues

Jornalista em (trans)formação, apaixonada por escrever, fotografar e curtir um som. Acredita que a beleza está nos detalhes e que a vida faz mais sentido durante uma boa viagem.

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