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Sobre a grandessíssima dificuldade masculina de fechar as pernas: o manspreading

Este texto não tem a ver com sexualidade – não estou falando de homens que não conseguem segurar dentro das calças (você me entendeu). O problema aqui é o manspreading, ou homenespalhando – termo utilizado para descrever a imagem abaixo, olha só:

Aposto que se você é mulher já reparou nessa prática. Já reparou o quanto é difícil dividir um lugar no ônibus ou no metrô com um homem todo espalhado no assento ao lado, enquanto nós fechamos nossas perninhas, cruzamos calcanhares e nos encolhemos no canto. O metrô de Nova York chegou ao ponto de promover uma campanha contra o manspreading, tantas eram as reclamações e absurdos vistos nos trens.

Tá, mas você pode vir dizer para mim que o homemespalhando não é, necessariamente, uma forma de imposição da masculinidade e, consequentemente, do falo como objeto de repressão. Claro, nem tudo gira em torno do falo, mas, você sabe, este é um texto feminista, então eu vou problematizar suas pernas abertas sim.

Existe todo um estudo que abrange as expressões corporais como forma de expressarmos diversos sentimentos e características. Inclusive você deve já ter lido sobre como se portar em uma entrevista de emprego ou como nosso corpo se movimenta durante um flerte; assim, convenhamos que o uso do corpo para dizer algo, não necessariamente com palavras, é real. O manspreading, as pernas abertas, expressam sinais de dominância – e estimulam esse sentimento em nosso cérebro, o que nos impulsionam a nos sentirmos confiantes e, consequentemente, menos vulneráveis. Assumir posturas de “macho alfa” desponta em nosso cérebro a impressão de que somos “machos alfa”. Analisando de uma maneira fria, evolutiva, animal, esse estímulo faz sentido, afinal, tivemos que conquistar nosso lugar no planeta e subjugar outras espécies pela sobrevivência. Mas vejamos o outro lado.

Na outra ponta está a mulher: delicada, pudica, de pernas cruzadas e mãozinhas no colo, o oposto do manspreading, da dominação, ou seja, a dominada, a submissa, a presa. Colocando nesse caldo toda nossa construção social de comportamento baseado em gênero – homem é assim, mulher é assado – é fácil chegar à conclusão de que o manspreading é, sim, uma forma de opressão. Oprime porque coloca as mulheres em seus papéis preestabelecidos pela sociedade: de pernas cruzadas (e isso tem inúmeros sentidos).

Discutir o manspreading não é apenas discutir o quão difícil para um homem é ceder seu espaço, também é discutir o quanto a imposição da dominância masculina ocorre no dia a dia, nos pequenos detalhes. Precisamos pensar em quanto é importante discutir nossas ações com viés de gênero e, claro, sair por aí nos espalhando, afinal, isso não é mais a época das cavernas e a igualdade de gênero tá aí.

Arte de capa: Gabriel Hirabahasi

Marcela Busch

Jornalista e feminista com orgulho. Adora escrever, hard news, política, tem o sonho de trabalhar em Brasília e poder dizer que tem "fontes dentro do Palácio do Planalto". Ah, também ama gatos.

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