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Via de mão dupla

“Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso da televisão a cabo, a falta de comunicação, a ausência do desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contrações musculares, a insegurança, a hipocondria, o stress e o sedentarismo são responsabilidades dos arquitetos e dos empresários da construção. Desses males, a não ser do suicídio, padeço de todos”.

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Cartaz do filme “Medianeras: Buenos Aires na era do amor digital” (Foto: Divulgação)

Com essa citação, alternando entre imagens de vários prédios cinzentos de Buenos Aires, inicia-se o filme Medianeras: Buenos Aires na era do amor digital (2011, Gustavo Taretto). O longa argentino narra o cotidiano de Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar Lopéz de Ayala): vizinhos de quitinetes, frequentadores da mesma academia de natação, transeuntes das mesmas ruas, mas que não se conhecem. Ambos levam vidas solitárias e colecionam neuroses — ela, arquiteta que nunca projetou edifício algum e trabalha como vitrinista, tem medo de elevadores e diverte-se com o livro infantil Onde está Wally?. Ele projeta sites, tem dores na coluna e não gosta de sair na rua. Com sutileza e humor refinado, o diretor confronta o espectador com uma solidão que é própria da era digital, agravada pela arquitetura claustrofóbica e pelos dias chuvosos de Buenos Aires, cidade que cresceu desordenadamente e sem nenhum planejamento, cujos prédios (cada vez menores) atrofiam-se e lutam por um espaço que não existe mais — “que se pode esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio?”, pergunta-se Martin no início do filme.

As cidades, desde a Antiguidade — passando pelas aldeias na beira de rios na Mesopotâmia e no Egito, pelas pólis gregas, cidades romanas, cercamentos ingleses e burgos da Idade Média — surgiram como espaços de troca de informações e produtos. Espaços de convivência de pessoas diferentes, de contratos políticos e sociais, e da construção da esfera pública. Com o advento da modernidade e, mais tarde, da era digital, porém, as cidades foram pouco a pouco perdendo essa característica única de convívio e troca social.

A Buenos Aires apresentada por Taretto em Medianeras é cinzenta e estática; um espaço no qual não há interação ou troca, apenas pessoas que se deslocam de um lado para o outro, de casa para o trabalho, numa espécie de solidão compartilhada. Segundo Raquel Rolnik, urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em seu artigo O lazer humaniza o espaço urbano, “a rua é um simples local de acesso, tornando-se apenas o suporte para a conexão de pontos, de endereços; rotas para se chegar aos locais onde existe prazer, isso tanto dentro do espaço doméstico — televisão, vídeo, vida familiar —, como nos espaços de consumo cultural e esportivo”.

A imobilidade e a apatia das grandes cidades modernas podem ser revertidas, no entanto. O papel de devolver ao espaço urbano sua autonomia e seus atributos de interação social cabe, em partes, à arte de rua. É o que diz Carlos Doles, ator e diretor da Trupé de Teatro: “os centros urbanos não são apenas construções, projetos arquitetônicos e urbanísticos. Eles possuem fluxos sociais, culturais. O cotidiano, a lógica do consumo e a frenética rotina da vida urbana massificam esses fluxos. Andamos sem perceber o entorno. Deixamos que o cenário que nos cerca suma na pressa”. Para ele, “quando uma performance artística acontece, esta altera, modifica o fluxo. Propõe um estranhamento no cotidiano. Ela amplia o olhar, a audição… Ela revela a própria arquitetura urbana esquecida. Ressignifica uma praça, uma rua, um prédio ou monumento. Altera o espaço e o tempo. Desloca o passante para outra realidade”.

A ressignificação do espaço urbano é uma via de mão dupla: do mesmo modo que a arte de rua — o teatro, o grafite, a música, a literatura — tem a capacidade de reconfigurar e renovar a cidade, modificando a maneira como as pessoas enxergam os muros, as calçadas e as fachadas de edifícios, a cidade é uma das principais fontes de inspiração para a arte contemporânea. Segundo o estilista João Maraschin, “a rua é o principal canal de relacionamento de nós, seres consumidores, tanto com a vitrine estática das lojas quanto com a vitrine ambulante das pessoas que vem e vão. Além disso, o ambiente urbano transgrediu a posição de cenário/ambiente e transformou-se no principal influenciador da vanguarda, que olha para a rua como fonte de inspiração e geração de novos resultados visuais”.

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Cena da peça “Do Alto da Santa Cruz vi o Auto do Menino Luz” (Sorocaba, 2012), da Trupé de Teatro (Foto: Adriano Sobral Fotografia)

Não faltam exemplos de obras que buscam no fluxo incessante e singular das cidades a sua inspiração. Além do longa Medianeras, filmes como O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012) e o documentário Cidade Cinza (Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, 2014) são críticas e reflexões sobre o impacto da violência, da urbanização desenfreada e da convivência entre diversas classes sociais na vida das pessoas que habitam a cidade. A cidade de São Paulo influenciou tanto Caetano Veloso quando o rapper Criolo a comporem algumas de suas canções mais proeminentes — “Sampa” e “Não Existe Amor em SP”, respectivamente.

A arte de rua deve ser encarada não como uma manifestação marginal, menor e de menos importância que a arte dos museus e dos Teatros Municipais, mas como um dos principais mecanismos de salvação da cidade e das interações entre as pessoas. “Rua, arte, política, resistência, poesia, público. A arte pública nos espaços públicos do público. Novos sentidos para a cidade, para o artista e para a própria arte. Arte viva criada em comunhão com fluxos vivos de uma cidade que caminha para o concreto, para a não-identidade e o não-lugar”, reflete Carlos Doles.

Foto de capa: Adriano Sobral Fotografia

Sophia Andreazza é autora deste texto e colaboradora da Revista Lampião.

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